
A dor de não te ter em mim, sendo ainda tu, é seca como uma batida num tambor velho. A tua ausência transporta-me para um campo de índios, onde eu ouço ao longe tambores. Os tambores chamam-me para casa.
- Está na hora de ir para casa.
Mas eles berram e gritam ao longe, os tambores chamam-me ao longe. Demasiado longe. Batidas secas que entram na minha alma e a chamam, e a roubam.
A dor de não te ter rouba-me a alma.
No dia em que partiste disseste adeus baixinho, num sussurro que eu não ouviria se não fosse eu a ouvir e se não fosses tu a dizer. A tua mãe agarrou-te na mão e não falou, porque a dor era maior ainda, a tua mãe beijou-te a mão e não chorou, porque a perda era maior ainda.
Eu chorei agarrada ao teu corpo e dentro de mim ouvia um piano, ouvia um piano a tocar pausadamente, como que a tentar não chorar. E tu ouviste também, não ouvirias se não fosses tu a ouvir e se não fosse a minha alma a tocar.
No dia em que tu foste, um piano ressoou dentro de mim como que a pedir perdão, e:
- Deixa isso ir, lembra-te só das boas coisas.
Tu disseste numa voz que arranhava o meu peito:
- Deixa isso ir, lembra-te só das boas coisas.
E eu abracei-te e deixei que as minhas lágrimas fossem só pelas boas coisas. E as tuas lágrimas, que nunca choraste, foram parte contigo, parte comigo.
Metade de ti ficou em ti, metade ficou em mim.
O sufoco de não te ter é físico e mental. Tu disseste:
- Adeus. Vejo-te por aí.
E eu ri-me e disse
- Está na hora de ir para casa.
E tu assentiste. Mas eu sei que tu entendeste que as minhas palavras eram tanto para mim como para ti. Sempre foram.
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