Quinta-feira, 4 de Novembro de 2010

Mensagem 263


Se calhar devia começar um livro, fazer de ti um monte de letras e não actos, voltar a cobrir-te com os meus lençóis e não mais tu em cafés com outras. Se calhar devia entregar-me a essa perdição que é a loucura e deixar-me lá ficar. Fazer de ti outra vez meu, como tu nunca o soubeste ser, podia emoldurar-te com descrições de sítios que nunca fomos e pessoas que nunca conhecemos. E depois esquecer-te, para quê que uma mulher deste século precisa de um homem? Esquecer-te sem esta dor que me atrasa a respiração, sem este estado de dormência que me atrasa a fala. Viajar e tu a morrer de ciúmes, no livro, a olhar-me por entre fotografias esquecidas, a querer-me por entre musicas da rádio e eu uma verdadeira heroína, a conhecer o mundo, sem ti a saber-me mal no céu-da-boca, sem o fracasso que tu saíres da minha cama significou e eu nem sei bem explicar porquê. Depois eu pousava as malas de novo no meu quarto e os meus amigos – não estes de hoje, pois estes agora olham-me de uma forma estranha – a sorrirem, a agarrarem-me na manga do casaco, a prenderem-me a cara com as mãos, e tu não mais a pesar-me no orgulho, a fazer-me esquecer quem eu fui e a fazer de mim esta mancha de gente, sem interesse.
Se calhar devia começar um livro onde tu não fosses mais tu mas um homem qualquer que me partiu o coração.

Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010

Mensagem 262




Só agora percebi a complexidade da vida. Tudo o que temos como certo, até o que não é certo mas eternamente garantido com quem nós somos – não o que temos – mas o que somos nas entranhas, no momento das reacções, até isso altera-se.
E é no dia em que acordo e não reconheço um valor em mim, do que eu fui, quis ser e do que eu prometi nunca ser. No meu caso, e falo somente do meu caso, foi numa noite muito fria em que eu me apercebi que tudo o que sou – reparem na dor de não ser “tudo o que tenho” porque o acto de não ter é tão mais remediável do que o de não ser – não era, simplesmente, suficiente. Simples. Que eu posso tentar – e Deus sabe que eu tentei – eu posso lutar, que não muda o facto de eu não ser suficiente. Mas alguém que me diga como é que eu desisto da única coisa que alguma vez quis? Com que cara eu cedo o meu lugar a outros? Como é que eu deixo de pensar
- Foda-se, que raio sou eu?

Sábado, 23 de Outubro de 2010

Mensagem 261

Tenho um emaranhado de coisas a dizer-te que me sufocam. No entanto, dizer-te és a minha melhor amiga é tristemente infantil mas não é pior que dizer-te és a única amiga que me resta neste mundo, que é, por sua vez, terrivelmente verdade.

Terça-feira, 19 de Outubro de 2010

Mensagem 260


São duas da manha e eu ligo-te a dizer que me sinto feia que nem um bicho. Tu dizes que eu sou disparatada e eu ouço uma gaja a rir-se no fundo. A culpa é minha, tu vinhas com “cabrão” escrito na testa mas presumivelmente também me devia sentir feia na altura.
Mas o verdadeiro problema da situação não é a gaja que se ri a roncar, ou tu seres um cabrão sempre com a barba por fazer, o problema é que são duas da manha, eu continuo a sentir-me feia e não tenho mais ninguém para ligar no mundo inteiro.

Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010

Mensagem 259


Sempre fui eu sozinha, sozinha dentro da minha cabeça e junto da minha família. Sozinha nas decisões e nas mudanças. Sou sozinha no meio da multidão e sozinha no meio dos amigos. Sou sozinha quando acordo na tua cama e sou sozinha quando tu adormeces na minha. Sou sozinha quando alguém me toca e sou sozinha quando alguém me chama.
Não gosto de ser sozinha, estou farta de ser sozinha. Mas como posso eu deixar do ser? O que me falta aprender para sair deste sentimento tremendo de auto-exclusão, de auto-ódio que me consome? Porque esta solidão não é mais um sentimento mas uma acção, um princípio que se tornou constante, e o meu silêncio e o meu não ser ninguém traz-me este frio ao peito e eu quero saber, quero saber agora, o que é que eu faço? Eu quero que o culpado desta minha forma de ser e viver me diga agora - por favor, agora, antes que tanta dor, tanto esquecimento me roube o ar de vez - o que é que eu tenho que fazer?

Mensagem 258


De todos os pesos que eu carreguei ao peito, és tu o mais pesado. De todas as cicatrizes que eu levo no braço, és tu a mais profunda. Porque de todas dores que eu conheci, nenhuma foi maior que a dor tremenda de não ser suficiente. Eu dei tudo de mim e tudo me foi devolvido usado. Repara, não há nada mais em mim. É o mundo todo entrelaçado no meu peito, novelos do que nunca disse, arames farpados do que ouvi. Repara, não há mais nada em mim. De todos os pesos que eu carrego no peito, és tu o que me pesa mais. Qual é a sensação?

Sábado, 17 de Julho de 2010

Mensagem 257


A tremenda diferença entre ser eu e tu, é que eu sou o papel secundário e tu és a personagem principal. Nunca foi de outro modo e deixei de acreditar que as coisas podem mudar.

Sexta-feira, 16 de Julho de 2010

Mensagem 246

Dá-me o teu dinheiro. Dá-me o teu apartamento em espinho e o carro que o teu avô te deixou. Dá-me as jóias da tua irmã e as pratas que estão em casa da tua mãe. Paga-me as férias a Andorra na Páscoa, a passagem de ano na Madeira e o verão no Algarve. Paga-me a minha roupa e paga-me o cabeleireiro. Paga-me uma redução das orelhas – sabes que eu sempre odiei as minhas orelhas – e um anti-age. Paga-me isto tudo e eu sou capaz de esquecer que estivemos casados vinte e dois anos, vinte dos quais tu pagaste isto a outras cabras.

Terça-feira, 6 de Julho de 2010

Mensagem 255


Agora já não sei dizer se o termo foi “ele morreu” ou se “ele faleceu”. É estranho porque sempre pensei que estes tipos de palavras ficassem queimadas no precipício do meu ser. No entanto, não ficou. O que ficou, foi uma cicatriz no meu coração, e pode ser extremo dize-lo, mas juro que é verdade. Uma cicatriz num evidente órgão que bombeia sangue, uma cicatriz maior que ele próprio. E o que não faz sentido é como é que uma palavra pode doer num órgão? Mas se formos a ver bem as coisas, tu também eras, no fundo, só um conjunto de pele, órgãos, sangue e músculos comandados por um cérebro, contudo e indo para além do óbvio, o cheiro da tua decomposição nos lençóis nunca conseguiu vencer o cheiro do teu cabelo na fronha da almofada, e ambos doem-me no coração, numa dor igual e absoluta.
E isto tudo, porque hoje, quando acordei, lembrei-me do gatinho que tínhamos que morreu ainda pequenino no escritório. Ficamos a noite toda acordados para ele não morrer sozinho e quando ele deixou de respirar eu encostei os meus dedos ao peito dele para sentir o bater do coração, e ainda batia, o gatinho não respirava mas o coração ainda batia. Ainda depois de o coração deixar de bater eu sentia-o tremer debaixo da minha pele. Por vezes, eu ainda sinto o bater do coração dele nos meus dedos, como um relógio que funciona sabe lá deus de quê.