quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Happy new year!


(Seja como for bom ano novo. Vou torcer por ti Sara e Su, não só neste ano mas em todos os anos)
Adeus 2008
Every beginnig means an end

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

note to myself





Have we not stood here like trees in the ground long enough?



- Walt Whitman

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

The killers

Don't shoot me Santa Claus
I've been a clean living boy
I promise you
Did every little thing you asked me
I can't believe the things I'm going through
Well no one else around believes me
But the children on the block they tease me
I couldn’t let them off that easy

They had it coming
So why can’t you see?
I couldn't turn my cheek no longer
The sun is going down and Christmas is near
Just look the other way and I’ll disappear forever

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

when you forget her, don't you dare remember me


Porque o fim das coisas não chegam com um sorriso,
Nunca chegam com um sorriso.
E foi isso que eu te tentei dizer antes de tu virares as costas naquela presa que sempre foi tua.
Nunca minha, nunca eu tive presa de te fugir.
E nunca a tua presa foi minha, porque tu nunca ma deste.
Não que eu não te tivesse pedido, implorado á porta da tua casa que sempre, sempre esteve entreaberta.
Nunca aberta, nunca fechada.
- Fica.
E tu não ficavas, na tua pressa de correr, de viver o que não havia para viver.
- Fica.
E tu não ouvias, com o peito ausente.
Mas ás vezes choravas, choravas com as mãos na cabeça, com um berro mudo.
E eu:
- Pelo menos tens-me a mim.
E tinhas, e tens. Porque eu nunca te menti, eu nunca, nunca te menti.
- Eu sei.
Mas o teu saber nunca foi o teu querer.
Porque eu sempre te amei para além de ti, eu via-te para além de ti, e para mim isso era suficiente, mas não era para ti,
E eu lembro-me de chegares com os olhos cegos, com o corpo morto, chegares sem pontuação, sem frases completas, e eu lembro-me de não me importar, tu chegavas, no entanto não estavas mas não eu não me importava porque tu chegavas.
Tu chegavas.
E na insegurança com que tu me envenenavas o meu corpo partia-se,
Em dois, em três, em mil.
E eu cega de ti, faminta de ti.
Porque tu, por vezes, chegavas.
E quando tu chegavas o meu corpo deixava de doer,
Eu via-te para além de ti,
Gigante, tão maior, tão maior que eu.
A carne tua que eu te tentei mostrar, porque eu queria em troca da minha.
Eu olhei-a vezes sem conta, toquei-a vezes sem conta. A tua carne, a tua pele.
Mas para ti não era suficiente, simplesmente não era suficiente.
Não penses que eu não sabia, eu soube-o sempre.
Quando nós falávamos pelas 6 da manhã – as conversas pelas 6 da manha são sempre as verdadeiras – tu nunca dizias o meu nome, tu nunca dizias sentir a minha falta.
E eu dizia o teu nome, eu dizia a falta que me fazes e como o meu mundo é perdido.
Não penses que eu não sabia, e as coisas chegavam ao fim, a noite caía, sem um sorriso, sem um abraço – nem contra o invisível – e eu tentava-te dizer
- Eu não posso ficar assim.
E tu dizias:
- Só mais um bocadinho, eu talvez mude.
Eu talvez mude de voz, de corpo, de sangue.
E tu mudavas mas sempre para pior.
E eu mudava não contigo, mas para ti.
Na imensidão que tu eras em mim, as coisas chegavam ao fim.
Sem um elogio, sem um: obrigado pelo que me deste.
Nunca um obrigado, nunca um: não há ninguém como tu.
Nunca eu, sempre tu.
A noite caia nas luzes da rua, e os monte e vales eram areia, pó de ti.
E eu:
- Fica.
Comigo. Para sempre.
E tu ouvias o que ela dizia, tu sempre ouviste o que ela dizia, nunca eu, mesmo quando mo prometias.
Nunca eu e tu, sempre tu e ela.
Ás 6 da manha, era sempre o nome dela, a saudade dela, o quanto ela te doía. E era tudo tão presente de tão pouco que era.
Eu era pouco, simplesmente era pouco.
Mas eu sabia-me muito, no entanto sentia-me pouco.
E quantas vezes tu não choraste nos meus lençóis?
E eu sabia lá o que fazer, o que te dizer.
A tua dor senti eu vezes sem conta.
Sempre, vezes sem conta.
Mas mais ainda, eu sentia a minha dor porque tu nunca choraste por mim,
Pela minha falta.
- Pelo menos tens-me a mim.
E silencio, ocasionalmente um:
- Eu sei.
E um dia tu deixaste de chegar, e eu deixei de ver para além de ti.
E doía-me, porque eu nunca vi ninguém como (não) te via a ti.
Porque eu sei que nunca hei-de conseguir ver alguém da mesma forma.
Porque tu levaste essa parte de mim, nos teus nunca eu.
Nos teus nunca obrigado.
Nos teus nunca
- Fica.
Fica. Fica. Fica.
Até “ficar” já não ser um verbo, mas um suspiro.
Deixar de ser palavra, para ser som de alma.
Tu nunca ficaste, mesmo quando eu te dei a mão na tua doença.
Mesmo quando eu esgotei a voz para falar por ti.
E tu sempre:
- Que depressão.
E então:
- Pelo menos tens-me a mim.
O que me dói essa frase, que dor me traz a recusa do meu orgulho.
Que dor esta que me traz solidão, porque eu só queria que tu me amasses da mesma forma, com a mesma força que eu te amava.
Que tu nunca me tivesses mentido, como me mentistes, traído como traíste.
- Só mais um bocadinho, eu talvez mude.

domingo, 21 de dezembro de 2008

i hope it's going to make you notice someone like me


Eram 8 da manha e chovia em todo o mundo, a minha alma era dura e eu era alguém que não chorava. Não chorava porque não precisava, o meu coração era inteiro e o meu peito não me pesava.
E tu dizias-me um génio, dizias-me a mulher da tua vida, dizias que tudo até ao dia em que me conheceste era nada.
E eu acreditei.
Eram oito da manha e chovia pelo mundo tudo quando eu me apercebi.
O amor é pesado quando é só meu.
Quando tu me o atiras em forma de pena pelo que eu te dou.
O amor é pesado quando tu me mentes,
Quando tu me dizias que me amavas para além da minha insegurança, da minha duvida.
E a minha duvida não doía, porque tu a adormecias,
E o meu ventre chorava as lágrimas da esterilidade com que tu me envenenaste,
Com os livros de auto-ajuda que tu me lias,
Com o aborto da minha confiança,
De quem eu fui.
Nos girassóis na mesinha de cabeceira.
Secos e podres nos dias que correm.
Paralisados na luz da noite que os mata,
E eu dizia-te:
- Vá lá, vem-te deitar.
E os teus lábios fechavam-se, e seja lá o que tu fumavas para esquecer, tu fumavas durante horas,
Até a tua alma ser só fumo e o teu beijo cinza.
Tu fumavas e tocavas guitarra com a ponta dos dedos,
Com uma distancia imposta por regras severas, como se viessem na bíblia.
Escrevias versos atrás de versos, coisas simples que nada diziam.
Falavas de Deus e da falta que Ele te fazia.
Ás vezes, falavas de mim, mas mais uma vez com uma distância rígida.
Como se me visses da janela do vizinho.
Do vizinho que começava a comentar os teus silêncios,
O velho dizia-me:
- Não se aflija, menina, que a culpa não é sua.
Ele era velho, e a velhice protegia-o de mim.
Mas as palavras dele faziam eco no meu ser,
E eu ouvia-lhe a voz:
- A culpa não é sua.
Mas a culpa tinha o meu sabor, tu nunca te deitavas a meu lado,
Tu não me dizias mais a mulher da tua vida,
E fumavas a alma para o tecto,
E o tecto era de um cinzento pálido, como os teus olhos eram, como as tuas palavras eram.
E aos poucos, eu era de um cinzento pálido.
Eram oito da manha quando eu vi as tuas malas junto da cama,
Os teus olhos vazios de mim.
Mas eu lembro-me de pensar que tinha de comprar girassóis novos,
Que os que jaziam na mesinha de cabeceira pareciam berrar de dor.
Eu lembro-me de te olhar e pensar na merda dos girassóis que tu nunca quiseste saber.
E tu disseste - com uma voz profunda, aguada, que me deu a impressão de estar há muito, muito tempo á espera de ser ouvida –:
- A culpa não é tua.
E então eu vi. E então o meu coração congelou até estilhaçar. E então eu vi-te três anos antes, o homem da minha vida. Eu vi-te o fumo do cigarro e da alma sair-te pelas narinas. E então eu soube que a culpa era minha de não saber ser a mulher que a tua vida precisa.
Eu não me mexi, não podia, não conseguia. Tu engoliste em seco as palavras que te subiam a garganta. A chuva caía pelo mundo, e o mundo parecia não ver. Tu pegaste nas malas, três malas. Uma mala por cada ano. Elas pareciam leves, vazias. E saíste do quarto, eu ouvi os teus passos pelo corredor e cada um me parecia mais duro que o outro, e cada um me trincava a alma com mais força. Mas eu não me mexi, não podia, não conseguia. Eram oito e sete quando a porta da entrada bateu. E o quarto estava escuro, frio e cheirava a tabaco.
E eu juro-te que o meu coração não batia, que o meu sangue não corria. Eu juro-te que nesse dia algo em mim morreu, desapareceu, mas a morte de tal foi talvez a coisa mais dolorosa, mas sentida em mim.
Foi física, porque o meu corpo congelou, foi mental porque a minha alma apodreceu e o bolor foi doentio, como se eu fosse a raiz de todas as doenças deste planeta. E o planeta deixou de ser meu, e eu sempre me senti longe de casa.
Eu transformei-me no tipo de pessoa que nunca gostei, eu sou o tipo de pessoa que chora quando se riem de mim. Eu sou o tipo de pessoa que o peito dói se alguém se esquecer do meu nome. E o meu nome não me parece meu, como se os meus pais se tivessem enganado não no nome, mas na filha.
Eu ainda guardo os teus poemas debaixo da cama, nunca os leio porque os sei de cor, e de vez em quando, quando se riem de mim, eu ouço:

Há que partir quando o homem se sente preso,
Porque o velho deixa de nos olhar nos olhos,
E a vontade de viajar se esconde na vontade fingida de ficar.
Perdoa-me amor, a alergia aos teus girassóis que nunca passaram disso.
Porque o velho cegou-me todo o amor quando disse,
Parte antes que seja tarde de mais,
E a morte do homem que és, seja culpa dela.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

(Ah, nevermind that outer space stuff, let's get down to earth!)

Eu sonho contigo de olhos abertos, e os sonhos assim não são sonhos mas desejos d’alma.
E os sonhos que são a distância entre mim e ti são fome do corpo.
Na ausência dos sonhos, as lágrimas são bebida minha,
Como penitencia da dor que eu sou,
Dor que eu não abro mão,
Porque por mais pesada que seja, leva-me a ver-te de olhos abertos,
Na ânsia quase exaustiva de te reencontrar nos precipícios,
Nos fins dos caminhos,
A rever-te por trás de muros, dentro de almas perdidas.
Quando eu sonho contigo a minha alma é viva,
E a tua alma é vida em mim.
E tudo faz sentido na realidade ilógica da vida.
E tudo está bem num mundo mal feito á nascença.
E é Outono, e o Outono fica-te bem,
No teu castanho escuro que perdura nas telas e nas paredes,
Como nódoas de sangue na pele,
Como promessas na língua.
Eu sonho contigo e tu não és tu, mas uma imagem de ti,
Como se eu te visse por um espelho gasto – porque quando os espelhos vêem de mais, gastam-se, tal como as pessoas –
E esta cidade não é esta, mas outra com o nome desta, mais quente, mais minha.
E eu não sou eu, mas a parte de mim que te vê com os olhos abertos mas cegos.
Com a alma cheia mas muda.
Com o coração a bater como quem está morto.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

by my side


Ao morrer bati-te a porta dos sonhos, mas os teus sonhos não me pertenciam e eu tive que esperar, eu tive que esperar que a minha ausência fosse sentida.
E quando finalmente foi, eu estava sentada a uma mesa de café quando tu entraste com o olhar perdido e me viste.
E todo o teu corpo estremeceu. Eu estava morta, mas parecia tão real. Com um sorriso pintado, a camisola verde que tu sempre gostaste, e até a forma como eu bebia o chá parecia-te certa de mais. E porque a imaginação tem destas coisas tu viste-me viva, o meu peito cheio de ar, os meus olhos aguados, os meus dedos vivos.
Tu viste e eu vi uma lágrima a molhar-te o lábio:

- Mas tu estás morta.
Foi assim. As primeiras palavras que eu ouvi na outra vida, com um tom de aceitação. Eu encostei-me ás costas da cadeira:
- Pois estou, já estava quando o médico me dizia viva, o meu peito não batia e não havia amor em mim.
Tu fingiste não ouvir, porque o sonho é teu e não meu.
- Como é morrer, como é estar morta?
- A morte é solitária, esfumada. E não temos mais nada para fazer que para além de pensar na vida que fizemos. Revemos tudo, até o que foi um dia invisível. Quando morremos o nosso corpo não mexe, não reage, nós dizemos “corre” e ele geme de preguiça, nós dizemos “foge” mas não há lugar nenhum para ir. A morte é redonda, e a nossa alma faz o papel de corpo, mas a grande diferença é que não se veste ou se maquilha a alma, ela é o que é, ela é os teus erros, o que tu deste de bom, o que tu roubaste, ela é quem tu foste em vida e está agora aos olhos de todos. E aqui, na minha morte, não há forma de não ter vergonha, não há comparação com almas alheias, os teus erros são o teu peso e a gravidade é de uma força absoluta.
- E o céu? E o céu que nos é prometido? E a eternidade pacifica que nos foi descrita?
Os teus olhos são de um vermelho isente, como se o medo da morte fosse uma dor consumida. Porque o sonho é teu, mas na verdade eu só te quero bem eu quero que tu tenhas a vida que me foi negada, eu digo-te com a mesma voz que tu ouvias:
- Não tenhas medo, porque no céu já tu estás. O teu corpo move-se, o teu riso ouve-se, as pessoas olham-te nos olhos. E mesmo que por vezes sintas o contrário, tu estás viva. E estar vivo significa ter hipótese. De ser, de ter, de ver, de tocar. Significa também sofrer, eu sei, mas por favor não te esqueças que o teu corpo é teu, que a tua vida é tua, foi-te oferecida a ti, e tu podes eleva-la ao que tu quiseres. Não te esqueças que a morte é certa, não tenhas medo de viver, de amar. Não sofras demasiado, não ignores demasiado, impõe-te.
A minha mão morta toca-te e é fria, a minha pele é dura mas não tem peso, e tu apercebeste que quase não a sentes.
- A tua mão está tão fria.
- Devias ver o meu coração.
- És mesmo tu, não és? Isto não é um sonho, és mesmo tu. Não é a minha necessidade de te saber bem, és mesmo tu que me respondes, és mesmo tu que me tocas.
- Eu serei sempre eu, morta ou viva. O que eu sou será sempre propriedade minha. Mas isso não te impede de me ver de outra forma, não te impede de me imaginar uma pessoa diferente, para o bem ou para o mal. Mas se fosse realmente eu que te dou a mão por cima desta mesa de café, eu teria de ter feito uma viagem imensa, ultrapassado anos, milénios da terra. Teria de ter visto tudo, porque sabes?; o mundo dos sonhos é vizinho do mundo dos vivos e o sitio que eu estou é longe, longe de tudo isso. Para te visitar eu teria de ter vindo das profundezas do universo, visto cada estrela e com a minha alma cansada batido á porta dos teus sonhos. Mas a verdade é que eu faria tudo isso para te ver só mais uma vez, por isso talvez seja realmente eu mas talvez não.
- Desculpa os males que eu te fiz, para não chorar tanto fiz-te chorar. Se eu pudesse dava-te vida de volta. Mas eu não posso e sei-o.
- A culpa não é tua, e nunca será, porque a culpa não muda de dono. Enquanto me continuares a abrir a porta dos sonhos eu venho-te dar a mão. Eu vou continuar a dizer-te que vai tudo ficar, mas com dias adversos. E que a morte é um fim de algo complexo, mas a continuação de algo muito mais complexo e necessário.
As lágrimas correm-te dos olhos, como vítimas perseguidas, mas as minhas lágrimas são abafadas pela dor da aceitação. Eu aceito.
- E essa complexidade passa por Deus?
- Esta complexidade começa em deus e na sua ausência. Porque apesar de parecer o contrário a morte não é silenciosa, e deus como Pai absoluto deseja ser surdo. Ouve-se tudo, todos os mínimos barulhos do universo. Mas mais que tudo ouve-se o choro da terra, as tempestades dos oceanos, as profundezas das raízes, o lamento pela sobrevivência. Tudo berra: as pedras, a areia, o vento e as folhas. E quase tão alto como o planeta berram os Homens, num berro que por vezes é uníssono. Eles berram “sexo”, eles berram “justiça”, eles berram “dinheiro”, eles berram “amor”. Todos querem ser amados, mas não sabem – e como podem saber se estão vivos? – que o amor também tem de ser dado. Que o amor é quase uma troca por troca e vem por todos os lados, os pais tem de saber que tem de amar os filhos para eles os amarem, o homem tem de amar a mulher para a mulher o amar. Mas se queres saber a verdade, eu vejo almas nuas e não há pecado mais duro que o trair de um amor verdadeiro, usar o amor incondicional para alcançar objectivos pessoais. O amor nunca será algo individual, se o for a tua vida será solitária. E por isso digo-te que Deus é ausente, porque mesmo Deus é pequeno para tanto mal, para tanta inveja, para tanta falta. Desculpa-O porque, na verdade, até Deus é pequeno.

sábado, 6 de dezembro de 2008

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Why don't you remember my name?


O que as pessoas levam de ti não devolvem,
Nem agradecem.
Por vezes, se tiveres sorte, elas voltam.
Mas as pessoas que partem são sempre aquelas que tu queres mais. E essas nunca ficam.
Como o silêncio surdo com que tu me olhavas, como se fosse pecado e a culpa fosse minha.
Mas eu adorava esse olhar que era teu mas meu,
Como pássaros em cima das nossas cabeças,
Nos dias quentes de verão.
Em que tu sabias o meu nome, e o meu nome tinha sabor nos lábios, nos dias.
Mas isso foi antes, nos tempos em que os teus olhos me chamavam e as calçadas embranqueciam.
Isso foi antes de tu fechares os olhos, de adormeceres sem viveres.
Hibernares nas mentiras bebidas.
Na ignorância de mim, de quem eu fui, de quem eu sou.
O que as pessoas levam de ti não cabe na caixa de correio,
Nem pode ser discutido por telefone.
Uma vez roubado é atirado para um imenso buraco negro – para onde foi o meu nome – e não volta, e ninguém se lembra, e ninguém procura.
As memórias ficam como tatuagens escondidas na fisionomia perdida, mas um dia oferecida.
Na poesia que tu te esqueceste de me ler eu perdi-me em lágrimas,
Em soluços desmedidos, em loucuras femininas, em horas perdidas.
Eu sonhei com os teus olhos doces que pousaram nos meus.
Por momentos inalcançáveis, quase irreais, que se consumiram a eles próprios na minha ânsia de os reviver.
Na minha ânsia exaustiva de te ter. Na minha procura quase louca de ti. De quem tu foste, de quem tu és.
Mas eu tentei, e Deus, ou seja lá quem manda aqui, sabe. Eu tentei.
Para além do meu corpo, para além do meu domínio, para além das minhas forças, eu tentei ser-te. Ter-te.
Se eu não fosse quem sou: bêbeda da má sorte, prisioneira das vontades vagas, talvez o mundo girasse sempre para o mesmo lado e eu conseguisse acordar, um dia que fosse, com os pés dentro da cama e o teu cheiro na almofada.