sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

human heart

Nunca pensei ser possível alguém aquecer-nos os pés durante um determinado tempo, desaparecer de um dia para o outro - só deixar o som da porta a bater como recordação - e mesmo assim, não obstante toda a falta de lógica da situação, aquecer-nos o peito para sempre, todos os dias.
A complexidade de quem sou, de quem tu és em mim como parte maior, é algo que vai para além da minha inteligência.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

It doesn't change the way I feel about you at the end of the day

Se estivesses aqui passava-te a mão pelo cabelo, muito inocentemente, dizias uma piada bem tirada e eu ria-me demasiado, muito inocentemente, eu contava-te uma história com um significado escondido para tu teres de procurá-lo na minha expressão de cara, muito inocentemente. Depois, quando chegasse a tua hora eu levava-te à porta e depois, chorava com um nó na garganta agarrada à almofada mas muito, muito inocentemente.

domingo, 6 de dezembro de 2009

18 anos

No que eu me tornei. É-me dificil gostar, mas relativamente fácil aceitar.

fear

Um dia acordei e o teu lado da cama não tinha sido desfeito.
(A verdade é que o meu medo nunca se baseou no que me iria acontecer de ali adiante, se me deixaste por outra ou porque eu te sufocava. O meu medo sempre foi tu esqueceres-me; o meu nome demorar a chegar-te à voz, não me mencionares nas tuas conversas sobre o passado. A tua partida foi um empurrão que a vida me deu, um balde de água fria, nunca mais fui ao sítio, sempre desmembrada, sempre com a voz aos tropeções. )

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

It's funny the things we finally learn

Existem pessoas que são lugares, e lugares que só existem pelas pessoas.

(Coisas antigas)


O que me fode mesmo são as outras gajas, sabes Manel? É imagina-las: jovens e magras, ainda a receberem a mesada do papá e a estudarem para os exames de matemática. Isso sim, dá-me cabo da cabeça. Quando vou almoçar com as meninas, até nos rimos da tua cara. Literalmente. Da tua monocelha e do bigode – que apesar de eu ter pedido, chantageado – tu decidiste deixar crescer.
Também nos rimos da tua maneira de rir. Arranjaste cá uma maneira, parecias uma hiena, ou uma foca, ou o bicho que nascia se os dois bichos andassem no truca-truca. Realmente até me admira que tenhas conseguido cravar o dente naquelas miúdas, seu Bibi. Até chego a ter pena delas, menos da Raquel, a essa podia-lhe cair o Carmo, a santíssima trindade e ainda o mundo em cima que eu cá não tinha pena nenhuma, e ainda lhe cuspia em cima.
Pois é Manel, arranjaste-as bonitas agora: a trazer a miúda cá a casa, com o cu a abanar e as cuecas de fora, se aquilo não estivesse a acontecer comigo até me tinha rido. Mas o caso era para chorar, não para rir. Só naquele momento, em que o bisonte me entra pela casa, é que me apercebi que tu me tinhas deixado. Abandonado. Desamparado. Todas as palavras que rodeiam a solidão. E lá entrou ela, com a mostarda no nariz a apontar-me o dedo. A mim, e a todas as “merdas rafeiras” que temos cá em casa. Pois fica sabendo, meu querido, que estas “merdas” foram compradas com as melhores das intenções, escolhidas a dedo. Sempre quis que tu e os miúdos se sentissem bem na casa que nós construímos, sempre fiz tudo o que pude para isso. Se não temos coisas mais bonitas é porque passamos por tempos difíceis, como tu sabes, como os miúdos – infelizmente – sabem. Mas como a Raquel ou as outras nunca poderão saber. E sabes, eu também tenho muita pena em não ter coisas mais bonitas, em não me vestir com coisas mais alegres em vez destes trapos que comprei quando ainda era solteira, mas quando me casei contigo prometi-te amar eternamente, até que a morte (e não a Raquel) nos separe, e amar dessa forma significa fazer sacrifícios, e eu fi-los. Já lá vão anos que eu não compro uma coisinha bonita para mim, tudo o que eu compro é para os miúdos e para ti, e isso deixa-me muito triste; ter que ir almoçar com as meninas com uns sapatos velhos ou com uma roupa gasta. Ir para o trabalho e ver-me ser pisada por meninas iguais às tuas amigas só porque elas tem maquilhagem e roupa mais bonita. É um mundo frio aquele lá fora, sabes Manel? É esse mundo que eu tentei sempre deixar fora da nossa casa, para os miúdos crescerem e serem mais que senhores doutores, serem Homens com H grande, como tu já foste. Tanto trabalho para nada, porque um dia estou eu muito descansada, a arrumar a cozinha, e tu entras-me com esse mundo frio pela mão, com o fio dental a sair das calças. Que vergonha Manel, que vergonha. Que desilusão. Logo tu que sempre me fizeste agradecer a Deus por te deitares ao meu lado, que adormecias de olhos abertos quando o Ricardo era pequeno e tinha medo de tudo, que te levantavas ao domingo de madrugada para veres os desenhos na televisão com os miúdos.
Que fiz eu? Eu nunca fui o tipo de mulher que tem “dores de cabeça”, nunca fui fria, e até me dou bem com a tua mãe que é uma bela peça de senhora. Eu nunca gastei mais do que tínhamos, nunca te deixei à espera, menti, ou embirrei sem motivo. Sempre estive do teu lado e fui uma boa mãe. Se envelheci Manel, pois bem, tu também, e eu não te abandonei por causa disso. Eu tive dois filhos teus e uma vida a passar por dentro do meu corpo, que querias tu?
Aqui estou eu, às duas da manha na nossa casa vazia, escura e fria. Sempre pensei que íamos os dois envelhecer nela, juntos. A lutar todos os dias contra a injustiça da velhice, a relembrar-nos mutuamente a grandeza do que fomos. Mas parece que eu vou morrer sozinha numa casa grande de mais, que um dia já me pareceu pequena.
Fui tua mulher durante trinta e dois anos. Trinta e dois anos. Catorze, vivi eu com o teu bigode, que por mais ridículo que seja, eu sinto falta. Sinto também falta do teu cheiro, e de noite quando eu tenho a certeza que nem Deus está a ver, eu cheiro a tua almofada e choro. Choro e berro, num desespero que me é proibido. Trinta e dois anos. Isso é uma vida. Eu tenho uma vida para chorar e fazer luto. E enquanto eu faço esse luto tu andas-me às cambalhotas com as Raquéis. Isso sim, é que me fode mesmo a cabeça. E foi isso que me fez mudar as fechaduras, aqui não voltas a meter o pé. Que é para ver se aprendes e deixas de ser parvalhão. Deves achar que eu me chamo Raquel, não?

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

San jose


The hands you were given just don't seem fair. You playin with what you given and your doing fine. But you try not to think about it most of the time, you just do what you have to, to make sure you get through. But sometimes it hurts. *


* Joe Purdy

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Mas não te vás embora, por favor. Obrigada.


Depois de tudo, encontrar-te é uma forma de Deus dizer:
- Vês? Eu bem te disse que sim.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Goodbye Alice in Wonderland

Quando eu era pequenina ficava enrolada numa manta a ver a chuva bater na janela e talvez uma tia a mexer-me nos caracóis, a fazer-me uma trança com uma destreza incrível. E talvez a mesma tia, as mesmas mãos, na cozinha, e mais uma vez uma destreza incrível, pão com manteiga que me sabe hoje a saudade. A aquecer-me a pedra que sou, sem saber bem onde acabo porque já me sinto acabada faz tempo. Sem saber bem para o que tenho jeito, não tenho jeito para nada, como se fosse maneta, sem boca, sem vista. A acabar onde os outros começam. Sempre antes dos outros, ou a prolongarem-me o tempo, porque não me enervo com facilidade, não fico nervosa com o dia-a-dia. Que venha o que deus quiser, que eu não tenho mais sitio para ir.
Quando me roubaram as mantas e o som da chuva, roubaram-me a cor da alma e foi um sarilho nessa altura, porque ninguém me esperava e já nenhuma tia a elogiar-me os caracóis. E os caracóis a fazerem-me achar feia, porque já nenhuma trança no alto da cabeça e ninguém a pedir-me a mão nas passadeiras. Crescer é também deixar de ser amado. Ninguém a admirar-me a trança, e a minha mãe não mais a orgulhar-se de mim à porta dos gabinetes das colegas. E eu um pouco maior e tornar-me numa pedra por dentro, a fazer do meu corpo uma ilha, sei lá porquê que cresci assim, é a maneira que sou, não gosto que se cheguem, porque demoro a habituar-me aos cheiros, aos timbres da voz. Mas depois, quando me costumo não quero outra coisa, e é mais um sarilho, porque as pessoas tendem a aborrecer-se, sei lá porque, é a maneira que os outros são, a fazerem ruídos com os olhos (eu ouço sempre os ruídos dos olhos e põe-me louca, porque nada tem de semelhante com o som da chuva na vidraça, a força).
A força da chuva na vidraça, aquilo espantava-me, porque estava lá fora, e eu numa manta com uma tia a olhar por mim não fosse a menina magoar-se. Nunca fui de me magoar, mas mesmo assim, vai-se lá saber. Nunca fui de me magoar, e quando deixaram de olhar por mim, eu tornei-me numa pedra, porque não havia mais manta e não havia mais chuva na vidraça mas agora chuva no cabelo, na dobra das calças. E o pão com manteiga eu que o fizesse.
Não sei da tia, é estranho como perdemos as pessoas, num dia o corpo a abraçar-nos, noutro frio, calado. E ninguém a dizer-nos a verdade, a sussurrar por portas encostadas. E agora eu uma pedra, com medo do que os outros vão achar dos meus caracóis, acha bem tia? Talvez não seja assim tão pedra mas mais lama, com medo de crescer, com um medo de morte de envelhecer, ser a tia de alguém (difícil, porque falta-me a sua destreza de mãos) e depois o meu corpo frio, calado. E só um sussurro onde eu antes estava.