quarta-feira, 31 de maio de 2023

Mensagem 290


Eu juro que chorei a noite toda,

Mas apareci no trabalho de cara maquilhada.

Eu juro que vomitei no canteiro,

Mas sentei-me no banco a beber cerveja com outro.

 

Fico-me sem saber se te diga o que se passa aqui dentro,

Se tu não vais entender,

E ia só te pesar na culpa, e quem quer um homem que fica, mas só atado?

Desenlaço-te as mãos com um nó na garganta e digo-te

- Vai lá.

Mas juro-te que tinha muito mais para dizer – Podia falar-te do sol nos teus ombros, de chegar a casa para ti, do desespero de saber que foste sempre fingido –

 

O futuro há de chegar,

Isso é certo,

E tenho a sensação que um dia haverás de saber o que sinto em primeira mão,

Mas por outro lado,

Nem sempre é assim, pois não Deus?

A solidão só é destinada a alguns, e porque é assim Deus?

Talvez esteja em mim, criada por mim e que como uma premonição, ataca-me quando menos espero.

Estes sonhos.

Os outros dizem-me que eu não falo muito,

Que guardo para dentro,

Mas a verdade é que eu não sei o que contar,

Porque dói como literatura, mas quando abro a boca parece uma novela.

E o meu amor por ti, que eu pensei merecer um hino, recebe caretas.

Como sempre.

e de repente, tu chegas a casa e dizes,

(ai, como dói admitir)

- Eu dou-me muito bem com ela.

Com a tua mão a agarrar a minha,

E a minha mão branca da força que fazes,

Mas lá largas.

 

E eu fico a ver o amanhecer às voltas na cama,

A pensar na tua mão a agarrar a minha com força e:

- Eu dou-me muito bem com ela.

E toda a gente te elogia a honestidade,

e dizem-me calada, mas se eu abrisse a boca diria que não vejo a honestidade,

só a tua mão a largar a minha.

Com intenção, com decisão.

E a honestidade, afinal era um pedido para sair da sala.

E já agora, de casa.

Para poderes bater com a porta sem eu ter que perguntar:

- Quando voltas?

Porque já sabia.

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