segunda-feira, 24 de março de 2008

Menina do Papá


Assim lhe chega o ácido aos lábios.
Ácido que é consequência das palavras venenosas que lhe chegaram antes aos ouvidos,
E consequência das dores que eram dela,
Ou pior ainda, das dores que eram de quem ela amava.
Dores e venenos que resultam no que vês agora.
Assim lhe chega o ácido à boca.
E as cicatrizes feitas pela infância incendeiam-se,
E todos os bolos de aniversário queimam-lhe as retinas,
E o cheiro do pai ausente arde-lhe nas narinas.
Assim ela engole o ácido.
E a dor que ela sente não acalma as lembranças das antigas.
Mas ela espera que a ausência de vida o faça.
Ela acredita que esta dor será a última,
E será um ponto final na esperança que nunca acaba.
Assim lhe chega a morte ao corpo,
E num último acto humano ela procura por Deus.
Mas Deus, mais uma vez, não está presente.
E num último acto de menina, ela chora,
Mas as lágrimas não são remédio ou cura.
Assim lhe chega o grito à boca.
Mas, mais uma vez, ninguém ouve.
Assim lhe chega o sangue aos olhos.
Assim lhe chega o ácido ao estômago.
Assim lhe é negado oxigénio.
E ela lembra-se do sol de outros tempos,
Dos grilos e pirilampos das noites de verão.
Ela lembra-se da barba do pai e dos beijos de boa noite da mãe.
Ela lembra-se dos amigos e dos inimigos,
Ela lembra-se dos motivos que a fizeram hoje desistir
E dos motivos para continuar.
E como ela chora e como ela berra,
Mas Deus, mais uma vez, não está presente.
Ela tinha um sorriso triste,
Tinha mãos pequeninas e as unhas ruídas.
Ela dormia sempre para o lado direito e era canhota.
Tinha jeito para a cozinha e para os números.
Ela gostava de iogurtes de ananás.
Mas ela não sabia cantar ou desenhar.
Ela era uma menina tímida, diziam.
Ela não gostava de espelhos ou de ver televisão.
Ela não gostava da escola ou do mundo.
E dizia que a escola e o mundo não gostavam dela.
Mas, antes de qualquer coisa, ela era a menina dos olhos do papá,
Ela era a razão de viver da mamã.

terça-feira, 18 de março de 2008

Vampiros


Ouvi dizer que partiste.
Que agarraste em dois pares de meias limpas, um revólver e duas balas.
Escreveste um bilhete de despedida, que facilmente se confundia com a confissão de um doido qualquer.
Deixaste a tua casa exactamente da mesma forma em que a deixaste antes de adormecer.
Não arrumaste a roupa limpa nem fizeste a próxima máquina.
Havia louça por lavar e um copo de água sobre a mesa. E silêncio. Muito silêncio.
Como se a casa estivesse ofendida por ter sido abandonada. A luz amarela-seca, assinada pelo Outono, reflectia na tijoleira do chão da sala. O gato malhado enroscava-se perto da porta. Parecia estar à espera, contudo não lhe sei entender a língua, não sei entender a língua dos gatos nem a dos loucos, se calhar é por isso que havia tanta confusão entre nós.
O sofá de três lugares, ainda tinha a forma das tuas costas no meio, e eu imaginei-te sentado acompanhado pela solidão á direita e pela loucura á esquerda, e imaginei o teu corpo onde as duas se juntavam e tentavam, tentavam, ser felizes.
Disseram-me, em tom de aviso, que levaste duas balas de prata. E eu ri-me baixinho, tão baixinho que se tornou choro. Achei que quando me chamavas ‘vampira’ era um segredo, era por carinho. Ri-me alto, tão alto que se tornou pânico. A luz seca outonal que alugou a tua casa como cama e sanita arrepia-me a pele. A forma como ela entrava pela janela, atravessava as cortinas claras e caía no chão, sem pedir permissão. E a quem pedir? Se tu saíste com a pressa de um caracol filho de uma hiena.
Sento-me do lado direito do sofá, para contornar a solidão com as minhas formas. O silêncio da casa ecoa dentro do meu corpo, e vejo as horas passar no descair da luz ou no ronronar rouco do gato gordo. A casa esconde-se no adeus do lusco-fusco, e as paredes ganham a pigmentação azulada, como se alguém pouco divertido escurecesse o bege. E, insatisfeito, arrefecesse o ar dentro da tua casa, o ar que inspiraste e expiraste vezes sem conta. O gato aninha-se junto das minhas pernas talvez para me aquecer ou para se aquecer, e eu deixo-me rir baixinho. Não tenho medo das tuas balas, mas tenho medo da tua ausência. Da tua ausência que me perfura mais fundo do que espadas ou traições. Da tua ausência que me rouba mais que perguntas sem resposta, ou as manhãs de Terça.
O gato enrola-se e os meus olhos fecham-se como cortinas no fim do espectáculo. Acabou, foste embora.
A toalha de banho está atirada para cima da cama desfeita, e fica assim: imóvel, silenciosa como uma fotografia tirada depois do por do sol.
O ronronar do gato desfase-se no sono profundo. Mas o silêncio mantém-me acordada, atenta à porta de entrada ou à da garagem lá em baixo.
O dia começa a afastar-se e os números do relógio digital que a tua mãe te ofereceu na Páscoa ou no Natal acentuam-se mais agora. Mas eu vejo-os desfocados, e o quadro em tons de vermelho e preto em cima da lareira fria ganha vida. Assombra-me por cima da minha cabeça mas não me defendo. Nunca tinha reparado nele antes, nunca tinha reparado como a tua desarrumação é organizada, como se espalhasses segundo um padrão.
Ao pé do relógio digital, em cima da mesinha de café de vidro, está a caixinha de madeira onde guardavas as balas e o revólver, a forma das três estão vazias. Nem fechaste a caixa na pressa de fugir. Fugir.
O bilhete de despedida jaz a centímetros da caixa, não te diriges a ninguém começas a carta com a data do dia de hoje e dizes ‘não me procurem’, não é só a mim que pedes que te esqueça, mas ao mundo todo. Mas não sabes que para o mundo todo é mais fácil esquecer-te do que é para mim.
A casa fecha-se dentro dela própria, a tua ausência racha as paredes e gela os móveis. Prende-me ao chão como cola. Prende-me a ti como impressão digital. E é verdade, é real, é tocável.
Um dia quando te abandonarem vais entender o valor da verdade e do real, do tocável do que se pode guardar no céu-da-boca ou escondido dentro da gaveta da roupa interior. Um dia quando te abandonarem e deixarem um bilhete rabiscado e um gato malhado vais saber o valor das recordações, vais saber que só elas têm força para aguentar com o peso de uma casa extinta.

terça-feira, 11 de março de 2008

"My care for you is from the ground up to above"


Escrevo-te esta carta, numa forma de rendição pessoal. Em nada, ela é uma ofensa ou uma afronta ao que alguma vez tivemos. Se fizeres questão de a denominares então que ela seja um pedido de retorno, ou simplesmente uma carta. Não precisares de lhe dar mais importância do que ela realmente tem, nem precisas de mudar nada por ela existir. É só mais uma carta.
Há pouquinha coisa para te contar, mas a monotonia é algo que também merece ser referida, por isso, e para não faltar ao respeito a ninguém, deixa-me roubar-te um bocadinho de tempo para te dizer que os dias dobram-se em mim, que eu não aproveito nada e sei-o (e isso é o que mais dói) e nada faço para o mudar. Ou por outro lado, tudo o que faço não é suficiente. Simplesmente não é suficiente.
Não me deixes mentir e dizer-te que estou ou sou feliz, não estou ou sou, e a culpa não é meramente tua ou minha. A culpa é das pessoas que me rodeiam e me sugam, trincam, roubam e matam. Nestes últimos anos pouco descobri, no entanto todo o conhecimento que adquiri, só me serviu para me afogar em lágrimas; os amigos que eu pensei ter, revelaram-se seres humanos em decomposição. E eu não te digo isso como informação despropositada mas sim, porque também descobri que a decomposição é contagiante, e o medo da minha morte fez-me querer despedir. Não de ti e muito menos de mim (que saudades posso eu ter minhas?) mas sim das oportunidades e sortes, de todas elas, das que eu vi e perdi, das que agarrei, das que eu nem sequer reconheci ou daquelas que ainda estariam guardadas para mim. Talvez então me esteja a despedir de mim e de ti, porque considero-te a única pessoa que eu alguma vez amei por inteiro e de mim, porque me considero, apesar de tudo, a minha única companhia constante.
Eu vomito o meu coração aqui para te fazer entender ou, alguém que queira saber, que eu aprendi a abraçar quem me repugna a alma.
Que tipo de ser racional sou eu, se o meu mundo se baseia em pessoas que eu não amo por em elas não encontrar razoes para isso? Que tipo de futuro teria eu se todo o amor que eu tenho para dar, se esgotar em pessoas que eu não reconheça como merecedoras?
Tu sabes que eu não gosto de fazer perguntas, principalmente pelas respostas. Mas sinto que, de certa forma, está na altura de fazer algumas. O prazo da validade das minhas palavras expirou e como o silêncio não fica bem a ninguém, decidi escreve-las na mesma, ignorando a podridão latente que lhes soa nos sinais de pontuação.
Mas, por outro lado, nada dura para sempre. E eu aceito-o apesar de não o querer ou entender. Mas melhor que ninguém eu sei que as relações humanas podem-se tornar prisões. E, mais que qualquer outra pessoa, eu não aguentaria a prisão como morada. Por isso, e visto que me sinto presa de todas as formas que eu poderia estar, eu revolto-me à minha sina e aos caprichos de todos aqueles que me sugam, trincam, roubam ou matam. Eu sei que não posso, que não me é permitido, mas eu não consigo mais. Simplesmente eu desisto.
Eu sei que conto com o teu apoio, apesar de aqui não estares, estás em mim, no meu sangue e na minha pele. A tua ausência não consegue apagar a tua presença passada, é exactamente para isso que as memórias servem, para te ressuscitar ou não te deixar morrer. Para te manter aqui, e tu me manteres a mim viva. Estejas onde estiveres, a dormir, a comer, a sorrir ou chorar, tu estás em mim enquanto a vida me fizer companhia.
Estes anos fizeram-me entender certas coisas, e eu descobri em mim uma enorme paciência. Mas ela tem-se revelado mais uma fraqueza que um qualidade desde que tu deixaste este circulo vicioso. E eu prometo-te, que nada em mim te pede mais do que tu me tens para dar, e esta carta não é mais do que um desabafo piroso, um escape ao ódio que eu ganhei daqueles que enganei com amor.
Eu juro-te que te amei, de uma forma imensa e eterna. Eu juro-te que ainda te amo, de uma forma trágica e nostálgica. Eu juro-te que hei-de sempre te amar da forma que me for possível e necessária.

segunda-feira, 3 de março de 2008

a.C

Houve tempos,
Em que eu me perguntava se te tinha perdido.

Mas esses tempos são agora distantes,

E o presente tratou de os apagar aos poucos.
Hoje,

Eu pergunto-me se me perdi a mim mesma.
Se nesses navios,
Que tu chamavas de teus,

Me levaste a mim.
E se eu não me lembro de navegar á proa contigo
É porque me atiraste borda fora.

Se calhar a explicação para o meu estado de espírito é mesmo essa.

Eu não me sinto,

Não sinto sangue nem vida em mim.

Aqueles que eu amei e amo

Começam a saber-me a pouco, ou a muito.

Nesses tempos,

Nos teus tempos,
Eu tinha o suficiente, não tinha?

Tinha os teus navios,

Que eu chamava de meus,

Tinha os mares que nós chamávamos de nossos.

E tinha dois pés e duas mãos,
Para quando me fartasse do mar

E preferisse a terra firme.
Inocência minha pensar que podia voltar.
Maldade tua não me avisares que eu não podia.
Mas o mundo enterrou-nos aos poucos, e as dores da tua voz tornaram-se da minha ignorância.

A minha forma de vida baseia-se nas mentiras com que tu me alimentas.

E, para o caso de tu duvidares, eu não considero mentiras pecado ou algo de mau tom,
Eu sei que as que tu me dás são para o meu próprio bem,

E eu sei que elas são cura de muitas doenças,
Base de muitos casamentos,

E concordância de muitas pazes.

Mas eu sei também

Que elas são leito de muitas mortes.
Hoje,

Tu não me envolves na mesma áurea.

E o amor que eu algum dia te dei,

Por mais grandioso que ele tenha sido,

Secou-me do corpo.

De dentro dele, das profundezas dele.
O que restou
E o que eu ainda te dou,

É o resultado do meu esforço para não te deixar ir, ou a mim, ou seja lá o que for que mantêm as pessoas juntas, presas.
Mas hoje eu pergunto-me se me terei perdido, se o último ano, não terá sido um deslize na minha vida.

Um deslize que eu tomei por iniciativa própria.
Tudo o que de bom eu tive um dia, perdi.

E essa perda,

Torna-me vazia e estática.

Sem vida, cor ou luz.

Os meus sentimentos não estão balançados,

E tudo em mim é demasiado.

Eu não te censuro se partiste num dos teus grandes navios.

Mas contentava-me saber que ainda te lembras de mim.

Das palavras que eu te berrei ou murmurei.

Que eu te roubei ou ofereci.

Desafogava-me saber onde aportaste,
Se te tornaste um típico marinheiro com uma mulher em cada porto,

Ou então um solitário, com saudades de casa.

Da nossa casa.

Os esforços que eu faço para me conter na brandura do que me permitem,
Torna-me aos pouquinhos louca.
Todas as minhas acções que me podem incriminar,
Tiram-me o sono e queimam-me o estômago,

Mas isso não as impede de (e não te rias das minhas crenças) condenar-me ao inferno ou algo que se assemelhe.

Eu tenho a intenção de te escrever uma carta onde te peça perdão, onde te diga que me fazes falta, que rezo por ti.

Que quero, quero tanto, que voltes para mim.

Que voltes para a nossa casa.

Eu tenho dado de comer ao gato e regado as plantas.

A chave está onde tu a deixaste e os lençóis estão lavados.

Houve tempos,

Mas já não os há.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008




Aqui estou eu, com pouco para te dar.
Mas muito para receber.
Aqui estou eu.
E não sei muito bem o que te dizer,
Porque o português não me satisfaz,
E eu procurei, e procurei
E deixa-me garantir-te que nenhuma língua conseguiu traduzir o que a minha pele suou.
Eu procurei e procurei
E ainda não consegui arranjar solução para as dores do meu peito.
Todos os remédios que eu encontrei, ou julguei encontrar, no fim só mais dor me trouxeram.
E hoje, depois de toda a confusão de que me acusaste, eu garanto-te que o mundo é mais vazio e opaco do que tu pensas.
Do que tu imaginas.
Porque as promessas feitas em palavras cegas e mudas,
Afastam-se no leito das doenças.
Dos desaparecimentos, aparecimentos e mortes.
Eu garanto-te que os ‘quase, quase’ que te adormecem todas as noites,
Não te abandonam nunca.
São fantasmas pesados e indomináveis,
Sem pseudónimos ou apelidos.
São o que são
E têm o único propósito de matar.
De te matar.
Deixa-me dizer-te tudo o que a tua ausência me tirou
E ainda, o pouco que a tua presença me deu.
Deixa-me dizer-te que todas as tuas palavras são para mim insultos
E eu não entendo se tu me queres bem ou mal.
Se me queres de todo.
És um livro grosso e velho,
Mas vazio,
Vazio,
Vazio.
Tão vazio que cega e nos mói os sentidos.
Todos eles.
Eu procurei e procurei,
Enviei pombos e mensagens em garrafas,
Mas nenhum ser vivo viu, alguma vez, dor idêntica á que se enraizou em mim.
Sou o que sou,
Tenho liberdade para o ser.
E vou onde vou.
Mas isso não quer dizer, de forma alguma, que sou o que quero ser ou que vou onde quero ir.
Porque a liberdade não abrange os meus quereres,
Mas sim os de outro alguém qualquer.
Ele nem precisa de ter membros e tronco, precisa só de ser.
A minha vontade é ténue,
Tanto para mim como para o que me segue,
Mesmo para aquele que me diz amar.
E, ás vezes, esse desculpa-se com o meu feitio e azar.
E, ás vezes, eu respondo-lhe.
Mas, o português não me satisfaz.
E tu, tentas na tua forma pouco educada de ser e estar,
Mostrar-me um bocadinho da tua linguagem.
Uma que não é tua mas tu adoptas-te legalmente,
Mas essa também não me satisfaz.
Não me satisfaz porque em mim não fica bem.
Seja como for,
Aqui estou.
Respeita-me, ama-me e cuida-me.




quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Tranisto Intestinal


As saudades são transito no teu corpo,
Ultrapassam-te o sangue,
Atropelam-te os órgãos,
E insultam-te as células.
Meu amor, meu mísero amor.
A falta que não me fazes espanta-me.
Tanto amor que desapareceu. Morreu.
Tanto amor.
Ele pareceu-me eterno, imortal,
Mas, por estes dias, já lhe perdi o rasto.
Os teus olhos,
Sabiam-me a oceanos,
Mas, no fim, tornaram-se aquários.
Minúsculos aquários.
Não sei onde estás e o que é da tua alma.
Alma que foi um dia tão grande.
Imensa, de uma profundidade aliciante.

Mas, no fim, era só um poço.
O teu sorriso roubava-me, matava-me.
Isso não mudou, só a forma como o fazia.
Eu disse-te, eu pedi-te para não te perderes.
Mas tu disseste-me que te perdeste no momento em que te cortaram o cordão umbilical.
Mas isso é mentira meu amor.
Eu conheci-te antes de aterrares nesse teu universo.
Eu conheci os teus olhos oceânicos e a tua alma crescente.
Eu conheci as tuas alegrias e amparei-te as dores.
Diz-me que sim, diz-me que eu o fiz.
Garante-me que estes anos que me pesam no peito foram amados também por ti.
Diz-me.
Se soubesses a dor que as tuas viagens universais me trazem, não as farias.
Porque tu também me conheceste antes deste presente e das promessas deste futuro.
E apesar do nosso amor se ter esgotado.
Ainda tens dentro do teu armário as minhas cartas,
As provas da existência do nosso amor.
Colossal amor.
Eterno amor.
Ele deixou-se ficar dentro do teu armário e adormeceu em nós.
Não te mates, meu amor, não te mates.
Porque, para cadáver já cá estou eu.
Luzes azuis e luzes vermelhas acendem-se em mim.
Deus ouve-me por favor.
Leva-as de mim, fá-las desaparecer.
Ouve por uma vez.
Tira-as de mim.
Eu sei, e a idade faz-me compreender, que tu não podes fazer ninguém ficar.
Mas podes leva-las.
Isso eu sei, toda a humanidade sabe.
É um dos teus muitos trabalhos.
Ouve-me por uma vez.
Eu preciso de ajuda.
E eu reconheço-me fraca mas eu não sei que fazer ao meu corpo.
Eu sacrifico-me por mim mesma e por o que me espera,
Mas eu preciso de apoio e de oxigénio.
Deus, o meu mínimo amor fugiu-me.
E a solidão engasga-me.
Leva-las de mim, porque elas não me pertencem.
Se tu me procuras, procura-me nos sítios onde as minhas memórias residem.
Porque o que resta de mim não vale a pena ser encontrado.
Faz-me companhia.
Eu sei que nós não já não somos o que fomos.
Mas não te mates, meu amor, não te mates.
Porque mesmo com todas estas feridas que me destes,
Eu preciso dos teus olhos, mesmo que eles sejas apenas aquários.
Porque eu tenho uma imaginação enorme, e eu vou conseguir imaginar neles os oceanos que já secaram.
De vez em quando, eu vou conseguir imaginar neles o que neles lhes falta.
Meu mínimo amor, menti-te quando te disse não te sentir falta.
Eu tenho saudades tuas.
E as saudades são trânsito no meu corpo.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Volta para mim


A minha alma contorce-se,
E o amor que te prometi esvaísse.
Eu vejo-o a comer-se aos poucos.
Começa pelo principio, como deve ser,
E desce,
Eu vejo-o descer,
Descer por mim.
Corrói-me a pele.
E o mundo torna-se num lugar de loucos.
Eu corou-me a mim mesma de rainha.
E tu premeste-me que esta terra,
Será minha, só minha.
O teu dedo apontado ao infinito,
Relembra-me que todo o nosso amor foi comido.
Estou farta do menino Jesus e das suas promessas,
De pombas brancas
E da tua ausência.
Diz-me uma palavra certa e discreta.
Algo que me traga paz á noite,
E companhia de dia.
Traz-me poemas escritos pelo teu sangue de poeta,
E dias de segredo.
É capricho meu ou teu?
Desculpa-me a falta de paciência.
Estou farta, cansada, morta.
São tudo verbos e histórias.
Não são factos.
Nada do que eu digo pode ser escrito.
E, pior, não sinto que ninguém o queira escrever.
Se o que me faz eu,
Não é nada que eu amo.
Então deixa-me desaparecer.
Porque o amor que eu te prometo todos os dias,
Não me chega.
Ele trinca os seus próprios calcanhares
E engole-os sem mastigar.
Falta-me o ar.
Volta para mim, por favor.
A tua ausência é-me dor no sangue.
E eu olho os lugares que tu deixaste vazios,
E eles esvaziam-me a mim.
Volta para mim.
Eu não sei como mais te pedir.
As pessoas na rua, não sabem,
Não sabem.
Volta para mim.
As pessoas sentadas ao meu lado,
Não sabem a chuva que nós apanhamos um dia.
E não sabem o sorriso que nós usávamos.
Eu sabia-os todos.
Volta para mim.
O Inverno está a acabar mas eu não sei como lhe sobrevivi.
Lembras-te de nós?
Do infinito que fomos, e do nada que restamos?
Lembras-te?
Escreve-me ou telefona-me,
Porque sabes, tudo se tornou vazio e escuro.
Desde que tu partiste.
Os meses passam por mim,
E eu não sei, eu não sei.
Desde que tu fugiste, o meu amor tem-se comido a ele mesmo.
Sem modos, sem educação.
Meu amor fica comigo, volta para mim.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008


Eu sei só de uma certeza.
Ponho a minha mão no fogo (e qualquer outra parte do meu corpo) como tu vais ter uma vidinha santa.
Vais entrar na faculdade que queres e vais ter toda a diversão que conseguires aguentar.
Vais desmaiar de tanto te rir com os teus amigos que vão ser todos exactamente o que todos os amigos devem ser. Vais-te (des)apaixonar de morte todos os dias. Vais-te perder no teu próprio eco.
Num dia, vais acordar ao lado da mesma pessoa que acordaste nos últimos dois dias. Vais olha-la com olhos de formiga e vais acha-la tão linda, tão feminina, tão inteligente, tão perfeita. Vais-te casar. Vais ter uma casa. Uma família. Os teus filhos vão ter nomes como Salvador ou Carminho e vão ser exactamente o que os filhos devem ser. Vão ser altos e bonitos como os pais e vão saber sempre, sempre, comportar-se.
Vais viver num apartamento enorme na Boavista ou nas Antas sempre cheio de sorrisos e harmonia. Vais ter um cão grande, um lavrador talvez. Exactamente como um lar deve ser.
Vais deixar sempre bem cedo a cama, vais tomar o teu super pequeno-almoço sempre á mesma hora, vestir o teu fato sem gravata, dar um beijo de bons-dias á família, e vais sempre usar o teu melhor sorriso no teu carro familiar/executivo. Sempre.
Depois os meninos vão crescer e vão começar a sair a noite, a ser a noite. Tu vais-te sentir um bocadinho gasto, velho. Vais ganhar uma barriguinha e talvez, deixar crescer um bocadinho o bigode. Vais passar férias com a mulher e com os casais amigos. E vão todos divertir-se á grande, esquecer os empregos de luxo que tantas dores de cabeça vos dão.
Os meninos vão sair de casa e o cão vai morrer. Por isso vais comprar um carro desportivo, só com dois lugares, um para ti e outro para a mulher. A mulher que continua linda, feminina, inteligente, perfeita.
Vais começar a frequentar a missa aos domingos, vais rodar todas as pousadas portuguesas e vais aprender a apreciar queijos fortes e vinhos requintados. Os teus dias de barris de cerveja e charros nos cantos estão oficialmente acabados. Vais-te aperceber disso mas não te importas.
O teu cabelo que é hoje tão forte e brilhante vai cair no duche e encher a almofada. Mas tu vais pensar que esta vida já te deu tanto que não há mal em te tirar tão pouco.
Em cima da tua mesinha de cabeceira tens uma foto de família antiga numa moldura também já antiga. Vais olha-la todas as noites de relance antes de apagares a luz. O primogénito agarrado ás tuas calças, a tua mulher com o braço á volta da tua cintura com uns grades óculos de sol. Tão linda, tão feminina, tão inteligente, tão perfeita.
Há quanto tempo terá sido esta tirada? Vintes anos, quarenta? Deus, o tempo passa. Já sentiste o peso dos teus netos nos braços.
Mas ainda te lembras tão bem das tuas namoradinhas de adolescência e ao que elas sabiam. E lá com dificuldade lembras-te de mim, como é que eu me chamava?
Vais morrer com um ataque cardíaco durante o sono, não vais sentir dor nenhuma. Vais ter setenta e picos para assim nunca conheceres a incontinência e o esquecimento.
Na manha seguinte, quando a tua mulher acordar junto ao teu cadáver vai-te beijar a face – sem medo, sem nojo – e vai-te implorar, suplicar, para voltares.
Mas tu não voltas.
O teu funeral vai ser num dia de Outono, ao fim da tarde. O cemitério vai estar cheio e todos vão relembrar a pessoa divertida e amiga que foste. Os teus filhos vão chorar agarrados agora aos filhos deles, a tua mulher vai vestir o luto para nunca o tirar.
O teu cheiro vai perdurar nas fronhas das almofadas, as tuas fotografias vão estar presentes em cima de todas as lareiras de familiares.
Vais ter uma vidinha santa. Exactamente como uma vida deve ser.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008


O problema, muitas vezes, não reside na falta de fé.
Mas na falta de milagres.
De provas.
Muitas vezes, o que procuro esconde-se no que foste e no que eras.
Não no que és.
Porque esse, eu desconheço.
Não sei se a minha forma de vida é saudável, mas não me acredito que o seja.
E não sei se me esforço o suficiente para o ser.
Eu respiro-te, berro-te e aclamo-te.
Vivo-te.
Não me questiono, nem tomo medicação.
Tento á força toda ser quem fui um dia.
Mas se em mim o tempo voltasse atrás,
As dores e alegrias que nasceram,
Teriam sido em vão.
Ou não?
Não.
Se eu soubesse falar com os mesmos espasmos de sabedoria que tu
Eu já teria tentado a minha sorte além.
É isso que estás a fazer?
Porque se estiveres a tentar ter pulso na tua vida,
Se estiveres a tentar dar uma razão ás tuas pulsações,
Eu entendo-te. Eu admiro-te.
Porque de há uns séculos para cá,
A sujidade dos nossos corpos começou a contagiar a nossa alma.
E nós rebolávamo-nos nela,
Víamos, com olhos de vampiros, a nossa alma a derreter,
Plasticina ás mãos de quem se desse ao trabalho de se dobrar para a apanhar.
Tínhamos alucinações com insectos.
Nós éramos um deles.
A sujidade do nosso corpo entrava-nos no nosso ser quando nós falávamos.
E nós fartávamo-nos de falar.
Que dizíamos nós?
A nossa pele era borracha.
Tu apagavas-me.
Eu apagava-te.
Compulsivamente.
Os nossos músculos eram tecidos rotos.
E nem eu nem tu sabíamos (ou quisemos saber) costurar.
Os nossos ossos rangiam do (falta de) esforço.
Mas nós riamo-nos,
E o nosso riso fazia eco na china.
Era como um rugido, como um rosnar.
Nós não sabíamos de que nos riamos.
Mas se riamos!
Até doer, até chorar.
E fingíamos ser acrobatas, ginastas, invisíveis
Para podermos escapar à realidade que nunca desistiu de nos entrar na pele.
Ela deixou-nos cicatrizes,
Tens uma no cotovelo,
Que de tanto eu a olhar me ficou queimada na retina.
E eu tenho uma ferida no coração,
Que de tanto tu a ignorares, nunca cicatrizou.
E tu sais pela porta,
E o silêncio zumbe-me nos ouvidos.
E os nossos corpos meios mortos começam a ganhar forma e cor.
Mas cores distintas,
A mim calha-me a cor de cadáver
E tu ficas com cor de gente.
Vá, julga-me agora as palavras.
Vá, atreve-te.