terça-feira, 11 de abril de 2023

Mensagem 289

 


Nestes dias tenho pensado nos gatos,

E na forma como eles trazem ratos entre os dentes como presentes.

Declarações de amor ou talvez demonstrações de valor.

E como - com um berro e nojo - pontapeámos o presente para longe.

E onde um vê uma honra, o outro vê um cadáver.

Espécies diferentes com olhos diferentes.

Nestes dias tenho pensado em ti, em nós e nos últimos dois anos passados de mão dada,

E em como, onde um via um amor, o outro via uma emboscada.

 

Nestes dias tenho tropeçado na dúvida,

Se tudo isto não é um teste ao nosso amor,

Ou o testemunho do seu fim.

O que significa ficar, o que significa deixar-te.

A ouvir aquilo que vem do meu coração e do meu estômago.

Mas com a dúvida se talvez não somos mais que espécies diferentes,

E eu não mais que um gato com um rato entre os dentes e pêlo acabado de lamber.

terça-feira, 7 de março de 2023

Mensagem 288


Não assinamos nenhum contrato,

Mas houve um entendimento verbal Sr. Dr..

Ele prometeu tomar conta de mim,

Apesar de dormir quando eu estava doente.

Ele prometeu nunca me mentir,

Apesar de eu não saber com que valores ele se guia.

Não assinamos nenhum contrato Sr. Dr., a verdade é que

Ele disse que um papel não significava nada e que o que importava era o

Sentimento.

E eu ando aqui à volta com o

Sentimento.

A tentar ouvi-lo, traduzi-lo,

Com um dicionário nas mãos,

E eu peço-lhe que ele devolva a tradução assinada,

Ofereço-lhe a pele como papel e sangue como caneta,

Mas ele, Sr. Dr., diz-me que o que importa é o

Sentimento.

 

E eu que achava que já dominava isto dos contratos e dos sentimentos,

Volto à cadeira da escola,

A tomar notas nas palestras dos outros apesar do meu curriculum cheio.

A tentar entender que estupidez eu fiz Sr. Dr.

Para aceitar ceder a alma sem um recibo.

Outra vez.

quarta-feira, 1 de março de 2023

Mensagem 287

 


E talvez a juventude pareça sempre que foi perdida,

Mas ensinou-te as lições para saberes manter-te à tona.

Tu sabes:

Que se amares com o coração todo,

Não magoas.

Que se amares com o coração todo,

Proteges.

E tu sabes também:

Que se amares com o coração a metade,

Mentes,

Para que não te vejam a outra metade.

E com esta certeza tens que nadar.

Nadar até encontrar o abrigo de um coração por inteiro.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Mensagem 286


Às vezes sonho em dizer-te:

- Tenho que pensar.

E sair pela porta como quem vai só arejar,

E só dois dias depois tu perceberes que me fui embora.

 

E então vir buscar a minha roupa,

Enfiada em sacos do continente.

Levar os tapetes.

Tu ficas com o sofá - eu com a cama

Para a enfiar na garagem dos meus pais.


Levar a gata - D. Xica- na caixa e os girassóis debaixo do braço.

Olhar para a tua cara que finalmente entendeu o quão difícil é para mim e talvez, quem sabe, falarmos de ano a ano porque nos sabem estranho as memórias assim sozinhas.

 

Não sei porquê que sonho em ir,

Se te amo com tanto afinco,

Mas às vezes sonho em dizer-te

- Tenho que pensar.


terça-feira, 18 de agosto de 2020

Mensagem 285


Há dias em que o telefone não se cala,

A minha mão dada,

Um colo para me acalmar.

Alguém que me diga algo que eu não sabia

Sobre mim. E este planeta que gravita sobre o que gravita
por si.


Há dias em que sou eu sozinha,

A ver as fotografias dos outros no telemóvel,

Música como companhia,

E só eu própria para me dizer algo que eu não sabia,

Sobre mim. Sobre o amor dos outros que gravita também, como

tudo, sobre outro que gravita por outro.


Há dias em que eu estou em guerra dentro de mim,

(Mas de fato e gravata)

A gravitar sobre o meu próprio peso que eu ainda não sei se
pesa na balança ou é só ar,

Talvez a minha alma tenha o peso da balança.


Há dias em que a televisão está em guerra,

Há bombas e há jornalistas,

Há discursos e eu tenho medo

Porque as bombas não estão mais na televisão mas dentro de
mim,

Nas conversas com a chefe e com os meus amigos,

E eu nem sei se as bombas caem mesmo no chão,

Ou se só em cima do meu coração.


Ataque internacional,

Nesta alma que gravita

Sobre este planeta

Que gravita por si.

Mensagem 284




Pois aqueles que eu amo sempre me puxaram a mão para fora dos meus pântanos. Mesmo quando eles não sabiam que eu lá estava.


segunda-feira, 6 de julho de 2020

Mensagem 283



Agora eu já sei – em tom de voz derrotado – que qualquer cama nova em que me deite, é uma cama nova onde posso chorar.

E irei chorar até que o homem que deitado ao meu lado – em tom de voz de quem tem coração que sente – me perguntar porque choro.

Até lá, são só fronhas novas. E eles só homens com sono, não amores.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Mensagem 282



E quando eu for velha,

e só alma,

eu vou repousar na memória da tua mão no meu peito,

a aquecer o animal que ainda aqui vive.

Mas que um dia vai desvanecer

- Imagino-a a perder as garras, enrolar-se e adormecer - 

E deixar-me no lugar dela só a gente de quem eu sou,

o acomodar de fazer nada mais que esperar nada mais, na

qualidade de viúva: não de ti mas do animal em mim.


Na cidade que já não me chama,

eu vou esconder-me numa poltrona,

como os velhos fazem,

mas com a memória da tua mão em mim, ausente

dos devaneios das minhas ilusões de animal irracional.

O teu animal a tranquilizar o meu,

antes que eles desapareçam.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Mensagem 281



Eu invejo a tua bússola moral, sem norte ou sul, como deve ser fácil viver assim. Eu perco-me nas questões de certo ou errado, sempre à procura do livro de instruções nos braços dos outros.
Nas manhas dos outros.
Sempre a tomar decisões com lágrimas nos olhos, sem saber onde meter os pés.
E nesta falta de saber onde estar, sem a intuição do direito de simplesmente ser. Eu, Inês. Quem sou eu se os outros não me querem?
Eu invejo-te nas tuas mentiras, sem medo de me abrir este peito costurado a custo. Deus sabe que eu não seria capaz. Com medo de O chatear, Deus sabe que eu temo fazer mal com medo que o mal me alcance. Nesta fragilidade de ser eu. Aos teus pés me aninho, de cabeça levantada para não me engasgar na humilhação de aninhar aos pés de um homem.

Eu, Inês.  

Com medo de confrontar os outros. Os outros que nada sabem sobre mim, só sobre eles. Que nada me representam, mas tudo me definem. Quando vou eu sentir-me no direito de ser eu, Inês?
Eu invejo-te nessa forma que fazes da vida uma tourada. Achei que assim sendo tu tinhas o livro de instruções que eu anseio, mas parece-me a mim que as tuas instruções vêm dessa bússola sem norte ou sul.
Deus sabe que a minha me trava nas subidas. Confusa no meu peito. Quem és tu Inês? Quem queres ser Inês? É assim que se é, Inês? Sê esperta Inês.