sábado, 17 de julho de 2010

Mensagem 257


A tremenda diferença entre ser eu e tu, é que eu sou o papel secundário e tu és a personagem principal. Nunca foi de outro modo e deixei de acreditar que as coisas podem mudar.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Mensagem 246

Dá-me o teu dinheiro. Dá-me o teu apartamento em espinho e o carro que o teu avô te deixou. Dá-me as jóias da tua irmã e as pratas que estão em casa da tua mãe. Paga-me as férias a Andorra na Páscoa, a passagem de ano na Madeira e o verão no Algarve. Paga-me a minha roupa e paga-me o cabeleireiro. Paga-me uma redução das orelhas – sabes que eu sempre odiei as minhas orelhas – e um anti-age. Paga-me isto tudo e eu sou capaz de esquecer que estivemos casados vinte e dois anos, vinte dos quais tu pagaste isto a outras cabras.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Mensagem 255


Agora já não sei dizer se o termo foi “ele morreu” ou se “ele faleceu”. É estranho porque sempre pensei que estes tipos de palavras ficassem queimadas no precipício do meu ser. No entanto, não ficou. O que ficou, foi uma cicatriz no meu coração, e pode ser extremo dize-lo, mas juro que é verdade. Uma cicatriz num evidente órgão que bombeia sangue, uma cicatriz maior que ele próprio. E o que não faz sentido é como é que uma palavra pode doer num órgão? Mas se formos a ver bem as coisas, tu também eras, no fundo, só um conjunto de pele, órgãos, sangue e músculos comandados por um cérebro, contudo e indo para além do óbvio, o cheiro da tua decomposição nos lençóis nunca conseguiu vencer o cheiro do teu cabelo na fronha da almofada, e ambos doem-me no coração, numa dor igual e absoluta.
E isto tudo, porque hoje, quando acordei, lembrei-me do gatinho que tínhamos que morreu ainda pequenino no escritório. Ficamos a noite toda acordados para ele não morrer sozinho e quando ele deixou de respirar eu encostei os meus dedos ao peito dele para sentir o bater do coração, e ainda batia, o gatinho não respirava mas o coração ainda batia. Ainda depois de o coração deixar de bater eu sentia-o tremer debaixo da minha pele. Por vezes, eu ainda sinto o bater do coração dele nos meus dedos, como um relógio que funciona sabe lá deus de quê.

domingo, 4 de julho de 2010

Mensagem 254


Tu mudaste o meu conceito da casa, o que significa ser amado. Tu fizeste isso tudo por mim. E se em mim se acabar a voz para te dizer todas as feridas que lambeste, todos as manhas de quintas-feiras que apagaste, não te esqueças do abismo infinito que em mim viste abrir e mesmo assim a fenda que em mim tapaste.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Mensagem 253


Quando o amor acaba – o amor, não a relação, não falo do acto de cortar o cordão umbilical mas a morte do cordão em si – tudo o que aconteceu torna-se um sacrifício sem sentido, as pessoas que amamos – sejam elas o nosso primeiro amor, a grande amiga ou o gajo que nos deus boleia sexta-feira – tornam-se, de repente, os culpados pela ausência do nosso sucesso.
Isto é, o amor tem a selvagem capacidade de nos fazer sentir não uma pessoa mas duas, mas a extinção do mesmo – e partindo do pressuposto que todo o tipo de amor acaba de uma forma ou de outra – tem a subtil capacidade de nos fazer ver o que teríamos sido sozinhos.
Será então justo afirmar que os actos de amor são, a longo prazo, desprovidos de sentido? Será justo afirmar que tudo o que eu fiz por ti, tudo aquilo que eu acabei por desistir ou tive que forçadamente encontrar por ti, não me trouxe nada de bom?

domingo, 20 de junho de 2010

Mensagem 252


Três meses. É a morte de um amor que se prometeu eterno em três meses, no banco da frente do carro, numa esplanada na Boavista. São outras pessoas a darem-me a mão e outras a acenderem-te o cigarro. E a chama a iluminar-te os olhos e depois noite escura outra vez.
Três meses de telefonemas tardios e silêncios de dias seguidos. A janela do teu quarto embaciada e eu sem saber o que estou ali a fazer, tu a mostrar-me uma cadeira e desde quando é que o teu quarto é tão frio?
Três meses e excertos de cartas antigas no e-mail e chaves debaixo da cama, esquecidas.
E eu ao telefone:
- Como vai a tua vida?
Como uma qualquer. E eu, realmente, uma qualquer, de mão dada com outro. Três meses em cascata, eu presa em ti a acenar-me do outro lado da vida. E, de repente, saudades, tantas saudades. Mas de quê? Se eu de mão dada com outro e tu ao volante a pedir para te acenderem o cigarro.
Três meses que enterraram cinco anos, e eu ao telefone:
- Pois, e com quem vais sair hoje?

terça-feira, 15 de junho de 2010

Mensagem 251


Eu queria que fosse para mim esse beijo, esse jeito de cara. Eu gostava que fosse meu esse silêncio, esse sim, esse adeus mal sentido.
Eu queria como meu esse acordar, o lençol da tua cama e o leite na taça. Eu queria que fosse minha essa ironia, o timbre da tua voz. Eu queria que fossem meus os dedos que se entrelaçam nos teus. Por uma vez nesta vida, eu queria que fosse eu.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Mensagem 250


E então eu desci a rua. Sabes que todas as saudades não são suficientes. O terror que eu tenho de tu me deixares serve-me de alimento durante semanas. E como se eu fosse um feto, eu ando às voltas no útero de ninguém, em circunferências de mim própria. O porquê de eu vir sempre aqui ter, a este estado de dormência, como se um camião me tivesse passado por cima, ultrapassa-me. Como as lembranças tuas queimadas na minha retinha, tu a morder uma laranja e era o quê, Verão ou Outono? A dançarem à minha volta, a prenderem-me ao que eu sou. E eu odeio-me, eu odeio-me, eu odeio-me. Gosta de mim, gosta de mim, gosta de mim. Por favor.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Mensagem 249


Os corações partidos que se levantem. Que estiquem os dedos tortos e encontrem um corrimão. Porque, meu amor, tu disseste:
- Era incapaz.
E sete anos depois eu admito: o amor tem prazo de validade.