quinta-feira, 9 de novembro de 2017
segunda-feira, 6 de novembro de 2017
sexta-feira, 3 de novembro de 2017
Mensagem 277
Agora é diferente. Não há flores de inverno no meu jardim. Em mim. Colhidas pelos vícios da mulher que eu sou. Mulher sem flores.
Era uma noite fria, mas havia
calor em mim. - A necessidade de ser amada: sempre a paguei cara. E agora o espelho
pergunta-me,
- O que é de ti?
a minha mãe no telefone,
- O que é de ti?
A culpa é dele, Mãe. Foi ele, Mãe.
Ele disse que me amava, mas confundia o meu nome com puta. Ele planeava os meus
filhos, mas encostava a faca de cozinha ao meu ventre. Ele puxava-me o cabelo,
mas elogiava o das outras, Mãe.
Eu tive que me defender, Mãe.
Então agora é diferente. Não há
flores no meu jardim.
Pois, todas as pétalas para te
sufocar. Todas as sementes para te engasgar.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Mensagem 275
O abismo agora nos meus pés ou os meus pés no abismo. As cartas
que nunca te escrevi, eu sei que tu as chegaste a ler, mas nunca lhes recebi
resposta. Agora parece-me tarde de mais. Tudo agora parece tarde de mais. O abismo
dos meus pés. Eu e tu no teu carro, no banco de trás. E agora os meus pés no
abismo. Quando amamos com a certeza que é para sempre, amamos com calma. E depois
acaba e é tarde de mais. E eu tinha a certeza que era para sempre. A tua mãe a
chamar por ti, eram dez da manha. São três da manha agora, mas eu não voltava
atras. Porque voltar atras era ilusão, eu a achar que era para sempre. Que mania
de achar que tudo é para sempre. Agora nada me parece para sempre, e o medo que
isso é. O abismo que são os meus pés. Sempre a virar-me a cara quando eu com
coragem para olhar.
Os amigos não prestam a esta hora, não há amigos que nos
valham a esta hora.
sábado, 9 de junho de 2012
Mensagem 274
Houve um tempo que tu me amavas mais, paravas nas portas a
olhar-me como quem:
-vens comigo?
E nesse tempo que tu me amavas mais, eu nem sempre queria
ir, mas ia sempre. Tu escrevias-me cartas, eu perdi-as, sei lá porquê, nuca por
mal. Tu não gostavas de falar ao telefone, mas ficavas do outro lado da linha. Tu
não gostavas dos meus amigos, mas pedias-me sempre para vir comigo. E eu nem
sempre queria, mas tu sempre vinhas.
Depois houve o tempo que eu te amei mais, parava ao teu lado
como quem:
- e eu?
E nesse tempo que eu te amava mais, tu não me respondias, davas-me
a mão só quando bebias, e nunca me atendias o telefone. E eu triste, eu destruída, eu iludida. Eu
amuava, chateava-me. Depois acabou, comigo a amar-te mais. E hoje eu já não paro
ao teu lado como quem:
- e eu?
A questão está no ar sempre que tu entras na sala, sempre
que tu passas de carro.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Mensagem 273
Vamos indo e vamos vendo. Quando o dia chegar ao fim
contamos as cicatrizes quando estacionares o carro. Quando o dia chegar ao
fim eu espero por ti com a mesa posta. Sem
telefones e sem maquilhagem. Sem drogas ou tabaco, adultos para além das rugas.
Vamos indo e vamos vendo, se a idade for tristeza então não faz mal, voltamos
atras no tempo, tu fazes força nos ponteiros e eu visto outra vez aquele top
que tu sempre gostaste. Mas por agora vamos indo e vamos vendo, mas sim -respondendo-te
- tenho medo.
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Mensagem 272
Tu passavas pela montra do talho sempre um quarto para as
cinco. Eu esperava-te do lado de dentro e quando passavas eu calava-me, eu sustinha
a respiração e olhava-te. Tu olhavas de volta. E só esse gesto, dos teus olhos
nos meus, era inflamável.
Eram outros tempos, eram tempos mais silenciosos mas não menos
sentidos. Tu andavas no liceu e usavas uma saia azul a baixo dos joelhos. Era
bonita a saia. Eu trabalhava no talho duas ruas abaixo do liceu já fazia três
anos e nunca nenhuns olhos nos meus como os teus.
Casei-me coisa de quatro anos depois de tu deixares de
passar à montra do talho. Não eras tu no altar, não eras tu por detrás do véu.
Mas não importa, só às vezes é que me lembro da saia azul, dos teus braços
caídos e como, quando os teus olhos nos meus, o tempo parava. O tempo parava. Quando
se é novo o tempo pára.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Mensagem 271
Vamos fingir que é sábado. Vamos fingir que não passaram seis
anos, que tu não me viste nos declives dos dias e dos anos, fingir que eu não
vi o teu amor a olhar para outro lado.
Lembras-te da primeira vez que falamos? Nunca pensei, nunca
acreditei, que o mundo pudesse dar tantas voltas. Vamos fingir que não deu. Vamos
fingir que ainda somos adolescentes, que o coração ainda bate da mesma forma. Quem
me dera que batesse da mesma forma.
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