

- Têm sido tempos difíceis.
E, de facto, não minto. São tempos difíceis. Contigo longe de mim, a olhar-me por cima dos óculos de sol e a dizer-me
- Fazes-me tanta falta.
E eu a lembrar-me das férias de verão, eu e tu a matar mosquitos com almofadas. E eu já a saber que um dia iria sentir a tua falta, só não pensei que tão cedo, tão forte. Queria-te dizer tudo o que me fica no nó da garganta, mas não sai, não me deixa e o meu mal é esse, ver que as coisas têm acerto quando me fogem. Agora chamam-te doutor e tu gabas-te do apelido, com a mão no peito. Mas e eu já naquele tempo - quando tu ainda de mão dada - a saber que te iria sentir a falta, que um dia me irias saber a cinza. E eu a falar e a voz a sair-me luto, de que falo eu que o passar das horas não levem? Queria tanto poder subir, bater-te á porta e talvez tu me soubesses receber outra vez, e eu, só mais uma vez, a ser eu por inteiro. Com nome, corpo, tudo. Sem me demorar nas fotografias e eu defunta em algum baldio. Nome, corpo, tudo. Alguém à minha espera, alguma voz que eu reconheça como minha. E o fim do dia chegar e um
- Até amanha.
E tu não me saberes mais a cinza, mas ao que sabias: a laranja e a sol nascente. E todas as minhas feridas lambidas, sem me doer o teu
- Fazes-me tanta falta.
Porque tu não mais na memória. Mas sim outros, e esses outros a gostarem de mim e não a virarem-me a cara, a olharem-me sem me verem, a gastarem-me o juízo quando eu nunca o tive.