sábado, 13 de setembro de 2008

""

- O ódio é como uma sombra negra que não para de alastrar. Em muitos casos, nem a pessoa que o sente sabe de onde provém. É uma espada de dois gumes. Ao ferir a outra pessoa, ferimo-nos a nós mesmos. Quanto mais grave for a ferida que infligirmos, mais grave é a nossa. Pode chegar a ser fatal. Mas não é fácil livrarmo-nos dele. O ódio é muito perigoso. E, uma vez arraigado no nosso coração, extirpá-lo é a coisa mais difícil do mundo.
Haruki murakami – crónica do pássaro de corda

Cold

Porque as palavras devem ter destino, mas nunca fim, digo-te que a saudade de te ver é, aos meus olhos, como campos gelados, embranquecidos não pela idade mas pela saudade. Gelados e brancos. Tão reais ao ponto de quase os conseguir ver pela janela, de sentir os olhos dos campos pousados em mim, o gelo da sua respiração junto á minha pele. A saudade imensa que tenho de ti respira-me junto á pele, vigia-me enquanto durmo. Campos sem fim a arrastarem-se pelo mundo e pelo meu corpo, num infinito sem palavras.
A dor de não te ter em mim, sendo ainda tu, é seca como uma batida num tambor velho. A tua ausência transporta-me para um campo de índios, onde eu ouço ao longe tambores. Os tambores chamam-me para casa.
- Está na hora de ir para casa.
Mas eles berram e gritam ao longe, os tambores chamam-me ao longe. Demasiado longe. Batidas secas que entram na minha alma e a chamam, e a roubam.
A dor de não te ter rouba-me a alma.
No dia em que partiste disseste adeus baixinho, num sussurro que eu não ouviria se não fosse eu a ouvir e se não fosses tu a dizer. A tua mãe agarrou-te na mão e não falou, porque a dor era maior ainda, a tua mãe beijou-te a mão e não chorou, porque a perda era maior ainda.
Eu chorei agarrada ao teu corpo e dentro de mim ouvia um piano, ouvia um piano a tocar pausadamente, como que a tentar não chorar. E tu ouviste também, não ouvirias se não fosses tu a ouvir e se não fosse a minha alma a tocar.
No dia em que tu foste, um piano ressoou dentro de mim como que a pedir perdão, e:
- Deixa isso ir, lembra-te só das boas coisas.
Tu disseste numa voz que arranhava o meu peito:
- Deixa isso ir, lembra-te só das boas coisas.
E eu abracei-te e deixei que as minhas lágrimas fossem só pelas boas coisas. E as tuas lágrimas, que nunca choraste, foram parte contigo, parte comigo.
Metade de ti ficou em ti, metade ficou em mim.
O sufoco de não te ter é físico e mental. Tu disseste:
- Adeus. Vejo-te por aí.
E eu ri-me e disse
- Está na hora de ir para casa.
E tu assentiste. Mas eu sei que tu entendeste que as minhas palavras eram tanto para mim como para ti. Sempre foram.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

You gotta go there to come back


Tudo acabou antes de começar,
E eu estive mal nas brumas das luzes,
Mas tu afogaste-te em palavras,
Palavras que brotavam do chão como flores,
Palavras que nasciam do cimento preto, não podiam ser boas palavras.
E, de facto, não eram, fizeram-me chorar como uma criança,
Sangrar como se balas fossem.
Desde que tu partiste, agarrei-me aos livros como só um tolo consegue.
Apaixonei-me pelas personagens e faço delas companhia.
Rebolo-me pela cama, num embalar que está longe de o ser.
Passo dias sem dormir, desde que tu partiste.
Atravesso as noites contigo na ponta da língua,
Com o teu nome no umbigo.
Hoje percebo que tu nunca me amaste,
O amor que me deste não era mais que tristeza pintada e enfiada num sorriso.
Mas isso não me impediu de o aceitar de alma aberta.
E eu tê-lo feito com tanta cadência é o mais triste, é o que me mata e tira o sono.
Metade das pessoas que eu amei, não me amou.
Apercebo-me disso com a boca seca e o corpo dorido.
Metade das pessoas que me amou, eu não amei.
Apercebo-me disso com um peso no peito, e frieiras nas mãos.
Sou uma criança que não sou e não choro a nostalgia nunca minha porque as lágrimas secaram do meu ser.
Mas quando o fizer, chorarei mares e oceanos,
Onde então tu te possas afogar.
Onde tu possas aprender o que significa partir um coração.
Talvez, quando eu o fizer irei, finalmente, limpar a alma suja que me mancha o corpo.
Tu disseste-me doente,
E eu até posso ser menos elegante, menos preocupada e mais preguiçosa que tu.
Mas nunca, em altura alguma, fui tão egocêntrica, convencida e apática como tu.
É triste que nunca me tenhas amado,
Terias ficado em mim como algo bom na eternidade dos séculos.
É, de facto, triste.

domingo, 17 de agosto de 2008

Over ghosts

These are just ghosts that broke my heart before I met you

Mata-me


O teu corpo vestido de preto ao meu lado.
Pronta para morrer, dizes-te tu.
Os teus dedos frios e pálidos a procurarem os meus – uma última vez que é também, de certa forma, uma primeira vez –
Um sorriso cresce nos meus lábios:
A tua morte a fazer-me de companhia,
E pela primeira vez em anos eu sinto-me em boa companhia.
‘Eu admito, menti-te’, digo-te num sussurro que é berro d’ alma.
Menti-te não uma, mas mil vezes, não sou quem tu me achas e o meu nome tem mais duas vogais do que aquelas que tu contas.
Menti-te, e hoje, não me arrependo.
O teu corpo a morrer sentado, velho sem o ser,
Imundo como sempre foi, mas tu sempre o escondeste.
Mas o sangue não sai com água e sabonete
E, por isso, as tuas pupilas e unhas são vermelhas vivas.
O teu corpo a honrar o teu próprio luto,
Não tens medo da morte, mas tens medo que só o Diabo te abra as portas.
Estás a morrer e eu olho-te,
Não me dói,
Não me sufoca,
Nem sequer me comicha.
Vais morrer, amiga minha, já não era sem tempo.
E eu já imagino o teu corpo frio e hirto,
E a saudade a que tudo se vai resumir,
As memórias que não hão-de falar, porque já perderam a voz.
Minha mais querida amiga, estás a morrer. Ouves-me, agora?
Vais ser comida dos insectos que tanto odeias,
As baratas vão rastejar pela tua pele, e comer-te, comer-te
Comer-te,
Comer-te.
Até tu desapareceres.
Os teus dedos desmaiados a procurarem pelos meus.
Porque não vieste antes?
No dia em que eu te pedi a mão?
Menti-te minha puta, quando disse que não fazia mal.
Tu mentiste-me quando me disseste querer bem, quando me pediste para acreditar em ti, mentiste-me, traíste-me, feriste-me.
Morre num luto que eu nunca farei,
E eu chorarei a tua morte como se da minha se tratasse, mas só uma vez e porque fica bem.
Fica sempre bem chorar num funeral.

Ouve-se um (último) suspiro.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

I can't wait


Está tudo na forma como fomos educados, como as nossas mães nos embalaram à noite, como os nossos pais diziam o nosso nome. Está tudo no facto de eles terem feito isso ou não. Se o fizeram por verem os outros fazer ou se por instinto.
Nisso tivemos os dois sorte, os nossos pais sempre nos pegaram pela mão, e talvez o facto de termos tido uma educação semelhante juntou-nos. Por outro lado, pode ter sido os teus grandes olhos castanhos e a minha paciência a faze-lo.
O que nos separou é que eu não sei dizer, foi tudo, foi até a nossa educação semelhante, os teus grandes olhos castanhos e a minha paciência.
Foi o facto de eu ter que lavar a louça sozinha, e tu não saberes guardares palavras. Foi o facto de só saberes falar de ti, e eu não saber quem sou. Foi o facto de tu nunca fazeres nada por mim, e eu não ter nada para te dar.
Podia-te dizer que podemos continuar a ser amigos da mesma forma, que tu me podes telefonar a contar o que comeste ou deixaste de comer, que podes voltar a entrar em minha casa ás duas da manha a chorar porque a tua mãe não é a mulher que tu gostarias que ela fosse. De certa forma, eu também não sou, eu sei-o, e eu própria não gosto da mulher que sou. Mas alguns dos meus defeitos são incorrigíveis e uma coisa que tu nunca me poderás acusar é de não os tentar corrigir, apagar, matar. Tu, melhor que qualquer pessoa, sabes a guerra que eu travo comigo própria – todos os dias – sabes que eu tento e rezo para ser perdoada. Mas tu também sabes que é difícil contigo ao lado, tu és perfeito em todas as medidas, tens sempre a postura certa, tens sempre as mãos limpas, o riso certo, os olhos grandes e abertos, a voz no timbre, a mão no pincel, a matemática na boca, e o cigarro nos dedos certos. Eu sempre fui um desastre: queimo as pestanas, rio-me quando a piada não está presente, e preciso de tempo para fazer contas de cabeça. Mas eu sempre pensei ser um desafio para ti, ser engraçada na minha descompostura, na minha falta de tudo, mas hoje sei que comigo ao lado tu simplesmente parecias melhor. E tu sempre gostaste de ser o melhor.
Não digo com isto que não te amei de uma forma quase doentia, porque tu sabes que eu o fiz. Amei-te com todas as forças do meu ser, amei-te como nunca amei outra pessoa e duvido que alguma vez ame alguém de uma forma tão possessiva e inocente. O meu amor tinha o formato de uma tempestade e era mais vasto e mais sedento que um deserto. Eu era tua como um só um cão pode ser, eu era tua como só uma mãe pode ser, eu era tua amiga, tua companheira, tua. E eu disse-te isso, não disse? Disse-te enquanto lanchávamos, disse-te em cartas, disse-te em silêncio e disse-te em toque, mas tu nunca me entendeste. A verdade é essa, tu nunca entendeste o quanto eu era tua.
Tu, tu nunca foste meu. Tinhas sempre alguma coisa acima de mim, o trabalho, a família e um ou dois amigos. Não é que eu duvide que tu gostaste de mim, eu sei, porque uma mulher entende estas coisas, mas tu nunca foste meu. E ser de alguém é algo divino e não humano. O teu corpo nunca vomitou uma necessidade minha, nunca me quis incondicionalmente. Eu sempre quis mais de ti, mas como é que eu te posso pedir mais? Pedir mais amor, não é o mesmo que pedir mais dinheiro ou mais comida. Eu não me posso sentar à tua frente e dizer-te que preciso que me ames mais. Não sou esse tipo de mulher e tenho inteligência suficiente para saber que não se pode pedir amor a ninguém. Tu dás-me o que queres e o que consegues, e se essa quantidade não me é suficiente então o mal é meu. O mal é e sempre foi meu, por te ter dado mais do que tu me deste a mim. Por ter posto demais na primeira parte da equação.
Ter deixado de te amar, não foi uma coisa fácil nem premeditada, aconteceu aos bocadinhos, nas entrelinhas das tuas frases, na tua preguiça comigo, de nunca me perguntares “e tu?”, de não gostares de animais, de nunca pensares se eu seria feliz, mas principalmente, na dor que os teus grandes olhos me trazem. Eu sempre me olhei com pena da pessoa que me tornei, e o dia que eu reconheci esse olhar em ti foi o dia em que eu já não te soube amar. Os teus grandes olhos castanhos que me fizeram um dia apaixonar, foram também o que me matou. A ironia da vida tem destas coisas. O meu inerente karma.
Tivemos muito tempo juntos, e muito tempo, bem, é muito tempo. Não há maneira de o negar ou ignorar, sobretudo porque eu te amei de uma forma completa e prometi faze-lo até morrer. E, apesar de não parecer, ainda estou viva.
Assim, eu continuo parte tua: a lavar-te as lágrimas e os pratos. A rir-me sem medida, a não saber fazer nada bem e tentar ser metade do que tu és. Não foi sempre assim, mas agora é. Houve uma altura em que eu me abria para ti como só um ser humano sabe fazer. Houve uma altura em que tu me fizeste tão feliz que eu duvidei se tu não serias fruto da minha imaginação. Em que me deitavas a cabeça nas tuas pernas e rias-te das merdas que eu dizia, em que me abraçavas de manha e á noite, em que me beijavas com uma força doce, como só quem ama sabe fazer. Mas essa parte nossa morreu em algum lugar, e estas palavras são para lhe dizer adeus, para dizer a mim própria que essa parte nossa não está dentro de nenhuma garrafa de vinho ou vodka nem em estrelas cadentes. Acabou, morreu. Não vou chorar, porque não preciso de o fazer. E chorar é uma questão de precisar e não de querer.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Velhos hábitos


Depois do choro e da morte chegas tu.
Sem cavalo branco ou ouro nos bolsos, no entanto, com um sorriso herdado de Deus e um olhar aceso.
Aqui ainda estamos de luto, de mãos nos bolsos e lágrimas a rolar as faces.
Aqui ainda agradecemos a Deus o ar que respiramos e rezamos para que não chova.
Mas chove, durante todo o Agosto.
E nós choramos as lágrimas que já não temos.
E nós berramos com a voz que já nos dói.
E nós adormecemos com o corpo já velho de dormir.
E um dia chegas tu,
Com a voz rouca de felicidade e um coração cheio de tudo.
E nesse dia, não chove.
Nós saímos todos para te ver a chegar e tu perguntas porque choramos.
Na verdade ninguém sabe,
Eu vi os meus avós honrar o luto e a acordar de lágrimas marcadas nos lábios, e eles viram os avós deles fazerem o mesmo.
E como a bondade e a paciência a tristeza também é genética.
E tu, com o teu sorriso de diamante dizes que vieste de longe, muito longe,
Para nos dizer que o Inverno acabou.
Desde esse dia nunca mais choveu, nunca mais o luto foi sagrado ou as lágrimas amantes.
Mas eu tenho que te admitir, de vez em quando, eu sinto falta da chuva.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Sonho matinal


Acordei ás 9 horas da manhã.
E quando entrei no teu quarto, ainda de pijama,
Tu perguntaste-me o que é que eu queria.
Mas hoje, o português não é a minha língua e tu não me pareces um ser humano.
Hoje acordei com um tremor de terra,
Um tremor de terra que só ocorreu debaixo da minha cama.
E quando dei conta de mim já estava atrasada, e tu continuavas a berrar:
“Para onde é que vais?” e “o que é que queres?”.
São 9 da manha, e ninguém devia ser obrigado a acordar assim de madrugada e muito menos ouvir alguém berrar numa língua estrangeira.
Quando chego ao pé dele, ele tem as mãos na cabeça e os ponteiros do relógio espetados nos olhos, ele sangra e sangra e sangra.
Mas não há sangue, só a ideia de que ele sangra.
E enquanto ele me diz que eu estou atrasada de uma forma bastante exagerada faz-me lembrar o meu avô.
Mas um avô que eu nunca tive ou vi.
E atrás deste avô, que não é meu, mas é velho, talvez demasiado velho, aparece um relógio gigante.
Um relógio sem ponteiros mas que se agita e canta.
Canta uma música que eu já conheci mas esqueci.
É a musica que este avô me cantava, antes de eu ser pessoa, animal ou alma.
E ele continua a avisar-me que eu estou atrasada num tom mecânico.
As duas mãos na cabeça e o cabelo castanho molhado. Inundado, até já não ser cabelo mas sim água castanha que escorre até aos meus pés.
E, repara, não é água, é fogo.
Ele agarra-me na mão e diz-me:
“Responde! Porque não respondes? Responde, responde, responde!”
Eco.
Mas como hoje a minha língua não é portuguesa, eu deixo-me estar calada, até ele entendes que eu não sei falar, escrever ou até ouvir.
E ele percebe.
Como, não sei, mas ele percebe-me.
E dá-me a mão, não a agarra, dá-me.
E eu aceito e ainda lhe dou a minha de volta.
E começamos andar, devagar.
Está silêncio. Ele entende-me.
E eu paro, e lembro-me de mim mesma ainda a dormir, a perder o toque da mão dele.
Coitada de mim mesma, ainda a dormir e com o terramoto debaixo da cama.
Ligo-me. Eu não atendo. Mas eu não fico preocupada e penso que sendo eu como sou, ainda nem sequer me devo ter ido deitar.
Afinal ainda são nove horas da manha.

Era uma vez...


E assim foi,
A injustiça da solidão,
Os parâmetros da indiferença,
A carne que seca ao sol,
E as palavras que secam os dias de chuva.
E assim foi e como se não tivesse de ser, ficou,
Lambeu o chão em que te arrastas e as feridas que te fazem sangrar,
As mesmas feridas que não cicatrizam sobre verões e Invernos.
E tu disseste que não, berraste e fizeste crer que não havia motivos para ficar.
Mas mesmo assim ficou.
Apesar das trovoadas, das tempestades, de Deus e dos mortais berrarem-lhe aos ouvidos que não.
Ela ficou.
E deitou-te a cabeça no colo que é ventre e falou-te de tempos vazios e de outros cheios. Mas sempre com uma tristeza presente na voz e nos olhos pretos.
Uma tristeza profunda e dorida.
Mais uma cicatriz.
Uma que tu nunca lambeste ou beijaste.
Mais uma, portanto, nos olhos pretos que te olharam e
Nas mãos compridas que te tocaram.
E depois, partiu.
E assim foi,
Mais uma história de amor.
Sem suspanse, sem morte, sem promessas.
Ela foi e tu ficaste, com saudades do riso agudo e triste,
Dos óculos de sol enormes na cara miúda.
Dos pulsos morenos e das pestanas escuras.
Ela foi, e com ela levou os fim de tarde debaixo do limoeiro.
Os sorrisos mútuos e os desenhos assinados por ti.
E assim foi,
A alegria de não estar sozinho,
A dor que nasce com a nossa alma,
Os odores distantes que são primos dos nossos conhecidos.
Os apelidos que ficam no ouvido.
Perdidos, escondidos.
E assim foi.