segunda-feira, 6 de julho de 2020

Mensagem 283



Agora eu já sei – em tom de voz derrotado – que qualquer cama nova em que me deite, é uma cama nova onde posso chorar.

E irei chorar até que o homem que deitado ao meu lado – em tom de voz de quem tem coração que sente – me perguntar porque choro.

Até lá, são só fronhas novas. E eles só homens com sono, não amores.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Mensagem 282



E quando eu for velha,

e só alma,

eu vou repousar na memória da tua mão no meu peito,

a aquecer o animal que ainda aqui vive.

Mas que um dia vai desvanecer

- Imagino-a a perder as garras, enrolar-se e adormecer - 

E deixar-me no lugar dela só a gente de quem eu sou,

o acomodar de fazer nada mais que esperar nada mais, na

qualidade de viúva: não de ti mas do animal em mim.


Na cidade que já não me chama,

eu vou esconder-me numa poltrona,

como os velhos fazem,

mas com a memória da tua mão em mim, ausente

dos devaneios das minhas ilusões de animal irracional.

O teu animal a tranquilizar o meu,

antes que eles desapareçam.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Mensagem 281



Eu invejo a tua bússola moral, sem norte ou sul, como deve ser fácil viver assim. Eu perco-me nas questões de certo ou errado, sempre à procura do livro de instruções nos braços dos outros.
Nas manhas dos outros.
Sempre a tomar decisões com lágrimas nos olhos, sem saber onde meter os pés.
E nesta falta de saber onde estar, sem a intuição do direito de simplesmente ser. Eu, Inês. Quem sou eu se os outros não me querem?
Eu invejo-te nas tuas mentiras, sem medo de me abrir este peito costurado a custo. Deus sabe que eu não seria capaz. Com medo de O chatear, Deus sabe que eu temo fazer mal com medo que o mal me alcance. Nesta fragilidade de ser eu. Aos teus pés me aninho, de cabeça levantada para não me engasgar na humilhação de aninhar aos pés de um homem.

Eu, Inês.  

Com medo de confrontar os outros. Os outros que nada sabem sobre mim, só sobre eles. Que nada me representam, mas tudo me definem. Quando vou eu sentir-me no direito de ser eu, Inês?
Eu invejo-te nessa forma que fazes da vida uma tourada. Achei que assim sendo tu tinhas o livro de instruções que eu anseio, mas parece-me a mim que as tuas instruções vêm dessa bússola sem norte ou sul.
Deus sabe que a minha me trava nas subidas. Confusa no meu peito. Quem és tu Inês? Quem queres ser Inês? É assim que se é, Inês? Sê esperta Inês.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Mensagem 280



Leva-me a sério, mesmo nos meus piores dias. Não me ignores quando eu não faço sentido. Eu prometo melhorar, se quiseres eu deixo de fumar.

Eu perdi-me por aí, entre quem eu sou e quem tu és, o mal que lhe fizemos a ela, e nós. Todos sabem, meu amor. Eu que tanto fiz por esconder-me, todos sabem sobre mim.

Tu disseste:
- mostra-me quem és,

E eu afeiçoei-me à ideia, e na confiança de um navegador que enjoa nas ondas, ordenei que se abrissem as velas.
Sem mapa, sem tesouro, a tripulação duvidou-me:
- tu é que sabes,

Eu é que sei, braços no ar, e ai de quem de mim duvidar. O mundo é meu e eu sou capaz, sou capaz. Sempre fui boa, sempre fui meiga, ai de quem o dedo a mim apontar. Borda fora com todos, que o meu coração é bravo e morde.
O meu coração não sente, pedra rija mas pedra que mente. Até a mim me surpreende, sempre a cochichar-me enganos. Gosta de me dizer ninguém, e eu dizia-lhe,
- mentiras.

Até que tu largaste o leme.

Disseste que te magoava as mãos, era pesado de mais e bem feitas as contas, não te valia a pena:
- Não vale mais a pena.

E eu em alto mar, sem saber nadar. Foste embora num movimento que durou meses, de silêncios, de gritos, de dor num coração que nada sente e não gosta de falar.

Tu deixaste de me tocar e eu aflita, quem me agarra se eu cair ao mar?
Este navio está a afundar-se, meu amor, ajuda-me. Ajudem-me. É uma ordem, ninguém me respeita. Eu sempre fui boa, eu sempre fui meiga, só quando não fui. Agora eu sou a capita de um navio a encher de água salgada.

Diz-lhes que eu não fiz por mal, sem intenção. Fiz-lhes porque o meu amor por ti mandou-me. Com as duas mãos no meu pescoço ordenou-me tamanha maldade.

Quando este navio afundar e a pedra que é o meu coração me levar ao fundo, que as minhas pernas ganhem escamas, que os meus pés em vez de pés sejam barbatanas, que o cabelo que eu cortei sem tu aprovares, cresça outra vez. E eu encontre perdão pelas minhas decisões e possa ir, finalmente, para longe de ti, deste amor.

Nos meus sonhos, tu nunca eras tu.
E o amor é um empreendimento parvo, que nos faz loucos, e quando de repente desaparece, desaparece. Deixa dois loucos sem casa.

Nós não temos muito mais tempo, parece-me meu amor, eu consigo ver as paredes a abrirem-se.


Mas, no caso, de tudo o que eu digo ser uma profecia – contigo sempre me pareceu tal coisa,  o dia em que te vi já o tinha visto antes e sempre soube que o dia de hoje chegaria, somente me surpreendem os pormenores – espero que o dia chegue e reconsideres, te lembres de quem eramos. Eu e tu, tu e eu.

Todos me sabem, mas só tu me reconheces. 

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Mensagem 279


Tu roubas-me as palavras e eu sou só um corpo. Mas e depois, tu roubas-me os contornos ao corpo e eu sou só um ser. E então, tu roubas-me a necessidade de ser e eu sou só vontade de te ter. 
E isso, tu nunca me roubas. 

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Mensagem 278


Olhei para ti como se olha para família. Que poder absurdo para um homem tão ordinário.
Olhei para ti com cuidado. Que poder absurdo para um homem que me expulsa da cama de madrugada.

Olhei para ti com paciência. Ao menos mudas os lençóis entre mulheres?

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Mensagem 277


Agora é diferente. Não há flores de inverno no meu jardim. Em mim. Colhidas pelos vícios da mulher que eu sou. Mulher sem flores.
Era uma noite fria, mas havia calor em mim. - A necessidade de ser amada: sempre a paguei cara. E agora o espelho pergunta-me,
- O que é de ti?
a minha mãe no telefone,
- O que é de ti?
A culpa é dele, Mãe. Foi ele, Mãe. Ele disse que me amava, mas confundia o meu nome com puta. Ele planeava os meus filhos, mas encostava a faca de cozinha ao meu ventre. Ele puxava-me o cabelo, mas elogiava o das outras, Mãe.
Eu tive que me defender, Mãe.
Então agora é diferente. Não há flores no meu jardim.

Pois, todas as pétalas para te sufocar. Todas as sementes para te engasgar. 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Mensagem 276


Estar aqui é diferente. Às vezes fazes falta, ou então minto, e sinto a tua falta em todo o lado. Se ainda te escrevesse seria qualquer coisa assim:

Estou em londres. Sinto a tua falta.

Estou em casa. Sinto a tua falta.

Estou em lisboa. Sinto a tua falta.

Estou meia viva. Sinto a tua falta.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Mensagem 275


O abismo agora nos meus pés ou os meus pés no abismo. As cartas que nunca te escrevi, eu sei que tu as chegaste a ler, mas nunca lhes recebi resposta. Agora parece-me tarde de mais. Tudo agora parece tarde de mais. O abismo dos meus pés. Eu e tu no teu carro, no banco de trás. E agora os meus pés no abismo. Quando amamos com a certeza que é para sempre, amamos com calma. E depois acaba e é tarde de mais. E eu tinha a certeza que era para sempre. A tua mãe a chamar por ti, eram dez da manha. São três da manha agora, mas eu não voltava atras. Porque voltar atras era ilusão, eu a achar que era para sempre. Que mania de achar que tudo é para sempre. Agora nada me parece para sempre, e o medo que isso é. O abismo que são os meus pés. Sempre a virar-me a cara quando eu com coragem para olhar.
Os amigos não prestam a esta hora, não há amigos que nos valham a esta hora.