terça-feira, 21 de outubro de 2008

Sem sentido #2


Quero que imagines que o mundo vai acabar amanha. Quero que ponhas de lado os planos de fuga, o medo, o sangue. Quero que penses só em mim, que eu vou acabar amanha.
Pensando desta forma eu digo-te que te amo. Que te disse, em tempos, palavras que não são palavras, mas blocos de gelo e quero que me perdoes por isso. Que me perdoes as palavras que disse antes de pensar, e que te lembres só que eu te amo. Porque eu faço-o com verdade nos gestos e quando te peço para ficares comigo até a noite acabar é só porque assim o tempo não acaba. Começa tudo de novo.
Quero que saibas que eu sei até que ponto te trouxe dor por vezes, mas a dor vem agarrada às pessoas como pele, e se eu nunca te tivesse magoado é porque nunca tinha estado perto o suficiente. E eu estive, disso não há duvidas.
Eu quero que saibas que se o mundo acabar amanha a nossa memória perdura pela eternidade do que acabou, a pairar no ar como um grito abafado. Um pedaço de ar mais pesado, quando o mundo explodir, nós ficamos nas memórias dele como flores. Jardins inteiros. Jardins a perder de vista.
Como quando nós éramos crianças e eu saltava-te para as cavalitas e para o peito, como borboletas que a nossa voz foi. Como os compassos da canção que Deus nos fez esquecer. Eu cabia-te no colo, e tu cabias-me no regaço. E éramos um sem o ser pela lógica. E éramos um para o perder da razão. Mas hoje é o último dia do sol, das estrelas que nos rodeiam; é o último dia em que eu te sei meu. E esse dia vai para além da dor e corrói as almas dos passados e dos futuros como saudade do que ainda não se viu.
A saudade do que ainda não se viu é a saudade mais profunda. Porque começa fora de nós e acaba no mais profundo do nosso ser. Ecoa pelo vazio da nossa alma e dói sem dizer porquê. Entra nos nossos sonhos sem identidade e devora-nos a língua. É essa a saudade que nos enterra.
Mas o que eu te quero dizer não são as minhas teorias sem nome, mas é o meu amor com vida própria que, como insectos, pulsa no meu peito. Mas não dói, eu juro que não dói. Dói a ideia de ele não mais pulsar, dói a ideia de eu não mais o ver pulsar em ti. Se dói!
Quando tu saltaste da ponte do País que se afogou eu saltei num abismo sem fim. E uma dor sem limites saltou na distância entre nós. O mundo saltou. E ouvia-se na boca do mundo que o fim do mundo estava próximo. E via-se no olhar do mundo que o fim estava próximo.
E eu vi o teu corpo a saltar da ponte que não existe, no país que se afogou nas águas que nunca verteu. E o teu corpo caía e caía. Os teus braços – que são meus –, as tuas pernas – que se enrolam em mim –, e os teus olhos que são tempo na minha juventude esgotada. Tudo caía. Tu caías de mim.
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Eu também (Tu fazes-me ter nojo, sei lá de que, mas metes-me nojo. E se te fores embora, na verdade fazes-me um favor, não tens nada na cabeça ou no peito, só a (estúpida) ideia que mereces o mundo. - Mas coitado do mundo - Seja como for, não me interessa, porque me metes nojo e eu nunca te amei. Tudo o que eu fiz por ti se, não foi por pena foi por qualquer coisa parecida, bem pior que a pena. E quero lá saber se tu me amaste ou não.) gosto muito de ti.

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